terça-feira, 24 de setembro de 2013

Por que eu choro?


Eu quero abrir o coração e chorar sem ter a minha espiritualidade questionada. Embora muitas vezes o choro possa significar tristeza; ele não é sinônimo de fraqueza, mas de humanidade. Choro porque sou humano. Choro porque sou "mundano" ― mundano, pois habito esse mundo.
Chorar é o extravasar da alma, pois esta não se contém diante das cascatas de sentimentos que desabrocham diante do sofrimento humano. Este invade o seu âmago. Ignorá-lo é anticristão, é antievangelho, é anti-humano! A miserabilidade humana deve refletir o quanto somos miseráveis. Uns ganham em cima dela. Outros perdem a sua vida por ela. Mas outros, simplesmente, são indiferentes a ela. Ser indiferente ao sofrimento do outro é estar em trevas. É estar em escuridão, é ter a alma pulsando amargura, ingratidão, desesperança e solidão. Isto é treva!
Quando penso o quanto sou impotente diante do sofrimento humano, angustio-me. Agonio-me pela sordidez dos políticos, pois através de um espírito público se poderia amenizar o sofrimento alheio, uma vez que eles, os políticos, têm o poder na mão. Aflijo-me pela ganância dos religiosos que usam e abusam da fé alheia para construírem para si um castelo de Narciso. Algumas vezes, odeio-me! A minha negligência apavora-me. Resigno-me rapidamente quando compreendo a minha impotência e limites. Isto reverbera em mim como uma bomba lançada em pleno meio-dia, no largo da Carioca, em plena movimentação, no centro da cidade do Rio de Janeiro. O efeito é devastador! Horrendo! Terrível! Desumano! Angustiante!
Mas quando olho para o encanto, a meiguice e a humanidade de Jesus de Nazaré, lembro-me que são "bem-aventurados os que choram". O meigo nazareno não titubeou; Ele chorou e, por um momento, sentiu a dor dilacerante de uma perda humana. Jesus de Nazaré sofre junto com a gente. Aqui, talvez, lembro-me que diante do sofrimento humano, não sou tão impotente assim. Ajuda Senhor a minha incapacidade de sensibilizar-me com o sofrimento do outro, como um dia Tu sensibilizou-se com o meu!


               


domingo, 28 de julho de 2013

CADÊ A JUVENTUDE "EVANGÉLICA"?



Ontem, domingo, assisti a reportagem sobre a preparação da Jornada Mundial da Juventude Católica no Fantástico. O evento promete ser algo muito salutar para um segmento religioso importante da história brasileira. Acho louvável que ressurja no Brasil um movimento de matriz juvenil, que denote a juventude brasileira, o incômodo da sua própria estagnação social.
A vinda de Bento XVI mostra o quanto a igreja romana vem dedicando grande atenção aos jovens. Desde a formação de sacerdotes joviais aos leigos da Igreja. Creio ser bem representativo para o jovem católico ouvir do seu pastor uma mensagem para a vida, o pensar e o testemunhar a fé cristã ― quem leu os documentos do Papa Bento XVI, embora discorde de suas posições dogmáticas, reconhece a extrema capacidade de um teólogo alemão: o pensar. A vida cotidiana de uma comunidade de fé remete para uma relevante ação conscientizadora de manifestar uma mensagem que faça sentido para vida daqueles rebentos que pensam e vivem a fé.
Dito isto, pergunto: “Cadê o movimento nacional da juventude ‘evangélica’?” Pasmo diante da pobreza de conteúdo ― intelectual, bíblico e espiritual ― de nossa juventude. A impressão que tenho é que os jovens contemporâneos da igreja resumem-se em fazer congressos, confraternizações e ensaios. Não! Os jovens são mais capazes que isso. Eles pensam, têm uma extrema capacidade de ler o mundo com os óculos de hoje. Neles, pelos menos para mim, está depositada a esperança de que, lá na frente, farão a transição cultural e teológica de que o evangelicalismo brasileiro precisa fazer.
Desde os meus quatorzes anos, e até hoje, não vi um movimento cristão-evangélico que desafie o jovem a pensar sua fé para fora das raias da denominação local. Naturalmente, este fato retrata a característica de gueto do movimento evangélico brasileiro. Mas as necessidades da juventude cristã são maiores que esses obstáculos. Ela não pode calar, tem de gritar e dizer o que pensa. Ela tem de ser ouvida!
Ministro aulas aos domingos, pela manhã, para os jovens. Lá, tenho comigo biólogos, pedagogos e outros aspirantes às profissões de seus sonhos. São pessoas inteligentes, capazes e perspicazes. Só precisam correlacionar as suas profissões com a consciência do Evangelho. Como, por exemplo, perguntar-se: “O que eu, quanto cristão e biólogo, posso fazer de concreto para a sociedade que está na rua da minha igreja?” “Como pedagogo e cristão o que posso realizar para estancar o índice imenso do analfabetismo que atinge a minha própria rua?” Juventude atuante, igreja influenciadora. Gente que evangeliza com coerência entre o que se diz e faz, igreja saudável e testemunho do Evangelho garantido.
Que a Jornada Mundial da Juventude Católica possa despertar os líderes e pais para a seguinte necessidade: a juventude cristã-evangélica precisa de atenção. Ela precisa de referências. E, ainda, precisa ser desafiada a pensar a sua própria fé no ambiente que vive. Podemos aprender muito com este movimento romano.
Que haja humildade de nossa parte para reconhecer: “não vai nada bem com os nossos jovens cristãos”.

M.O.O.
Rio de Janeiro, RJ.          

sexta-feira, 26 de julho de 2013

ELE REINARÁ PARA SEMPRE




Sermão Pregado na Assembleia de Deus Ministério São João de Meriti - Festividade do Coral Jovem Nova Jerusalém

Texto Bíblico: Apocalipse 11.15-18                                                      

I. QUESTÕES INTRODUTÓRIAS
1.    No livro do Apocalipse o Senhor Jesus se manifesta majestoso, glorioso e poderoso. Ele anuncia ao apóstolo João tudo o que foi, é e será.
2.      No capítulo em análise, Apocalipse 11, o anjo toca a sétima trombeta para anunciar que Os reinos do mundo vieram a ser de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará para todo o sempre (v.15).[1- não deixe de ler esta nota]
3.      Mas anterior a sétima trombeta, o livro do Apocalipse apresenta mais seis. Qual o simbolismo destas “trombetas”?
Números 10 apresenta algumas funções da trombeta em Israel:
      3.1. Reunir o povo para diversas ocasiões de festejos (10.1-8).
      3.2. Anunciar uma guerra (10.9).
3.3. Anunciar um tempo especial de sacrifícios de comunhão e holocaustos (10.10).
3.4. No Antigo Testamento a trombeta soou:
a) Quando a Lei foi divinamente entregue a Moisés no Monte Sinai (Êx 19.16-19).
b) Quando Salomão foi ungido o rei sucessor de Davi (1 Rs 1.34,39) ― Salomão estabeleceu o Templo Judaico.
c) Quando as guerras eram proclamadas (Nm 10.9).
                        3.5. Em o Novo Testamento, soou:
a) Quando a voz do Senhor foi como voz de trombeta aos ouvidos do apóstolo João na Ilha de Patmos (Ap 1.10).
b) Quando uma voz como que de trombeta convocou João subir ao céu (Ap 41).
c) A Segunda Vinda de Cristo será anunciada pelo toque da trombeta de Deus (1 Ts 4.13-18).
4. Logo, as trombetas têm o papel de anunciar um novo tempo, um grande acontecimento. No Apocalipse, elas anunciam juízos de Deus em relação a Terra e ao Ser Humano, mas também a segunda vinda de Cristo em glória, isto é, a chegada da plenitude do Reino de Deus. Assim podemos dividi-las:
               4.1. Catástrofe sobre a terra:
                          1ª Trombeta → a natureza (8.7)
                          2ª Trombeta → animais marítimos (8.8,9)
                          3ª Trombeta → o mar e os rios (8.10,11)
                          4ª Trombeta → sol, lua e estrelas (8.12,13)
               4.2. Catástrofes sobre o Ser Humano:
                          5ª Trombeta → Tormentas sobre os seres humanos (9.1-12)
                          6ª Trombeta → Morte da terça parte dos seres humanos (9.13-21)
7ª Trombeta → O Cristo intervém. A vinda do Reino de Deus e o julgamento dos seres humanos (11.15-18)

II. QUESTÕES DOUTRINÁRIAS
  1. Deus reinará plena mente no mundo (v.15). Isto se dará quando do retorno físico e literal de Jesus de Nazaré.
  2. A Igreja, o povo de Deus constituído de seres humanos dos quatro cantos do mundo, ― simbolizado pelos 24 anciões ― adorará ao Senhor todo poderoso que reina para sempre (vv.16,17).
  3. Todos os homens, grandes e pequenos, prestarão contas diante de Deus (v.18) ― os que destroem a terra e odeiam ao Senhor serão destruídos; mas os que amam e temem ao Senhor, seus profetas e servos, serão galardoados. É o dia em que Deus julgará os segredos dos corações dos homens (Rm 2.16).    

III. QUESTÕES APLICATIVAS
  1. Vivemos a tensão entre o “já” e o “ainda não”. O reino de Deus está nos corações de muitos cristãos, mas parece que a sua vinda plena tarda.
  2. Por isso, somos tentados a viver como não houvesse juízo final. Como que Deus não controlasse a história. Como se Ele não fosse julgar intenções e pensamentos.
  3. Onde está a promessa da sua vinda? Parece que tarda. Isto é motivo para se viver um cristianismo sem coração, essência e vida?
  4. As trombetas anunciam um novo tempo. De condenação e flagelos para alguns, mas de vida e esperança eterna para muitos.
  5. Um dia o Reino virá plenamente, mas enquanto ele não vem, os flagelos do coração, da alma e da mente podem ser sarados pela chegada do Reino em seu coração e mente. Isso pode acontecer hoje, agora.
  6. Deus não tem prazer em condenar, Ele mostra a seriedade da injustiça humana para nos mostrar a grandeza da sua misericórdia. Ele quer que todos os homens se salvem.
  7. Por isso, quebrantados e prostrados, adoremos ao Senhor e digamos: Maranata, ora vem Senhor Jesus!


[1] É importante ressaltar que as sete trombetas é o desdobramento da abertura do sétimo selo (Ap 6.1; cf. 8.1). O apóstolo João recebeu revelações, diretamente de Cristo, sobre o estado espiritual das sete igrejas da Ásia Menor: Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes e Laodiceia (2―3). No capítulo 4, o apóstolo recebe a ordem de uma voz para subir ao céu a fim de contemplar as coisas que vão acontecer (v.1). Após várias visões, João vê um livro selado com sete selos na destra de quem estava assentado no trono (5.1). O apóstolo chorava, pois não havia ninguém digno de desatar os selos do livro ou de abri-lo (5.4). Mas um dos anciões informou-lhe: “eis aqui o Leão da tribo de Judá, a Raiz de Davi, que venceu para abrir o livro e desatar os seus sete selos” (5.5). E na visão do apóstolo, o Cordeiro desata os selos. Estes simbolizam toda a história humana de engano e ilusões encarnadas na figura do Anticristo e seus asseclas. Pois, se abre o sétimo selo. Aqui se desdobrará o ressoar das sete trombetas. Isto é, as sete trombetas é a abertura do sétimo selo (8.1).  

quinta-feira, 18 de julho de 2013

ESPERANÇA APESAR DA DOR - A BRUNA FOI MORAR COM O SENHOR



Esta é a imagem que eu e a minha esposa, Gilmara, desejamos guardar em nossa mente e coração quando daquela noite singela de feliz de aniversário da Bruna. Como foi marcante aquela noite:

O mundo está louco! A vida é uma loucura! Como vim parar aqui? Não pedir para nascer, viver e, muito menos, morrer. Revolto-me ao pensar que uma menina de 18 anos na flor da idade está com uma doença humanamente incurável. O que dizer nesta hora? Simplesmente não há o que dizer! Aprendi que nesta hora é orar, porque enquanto há vida há esperança.
Sim, orar pela cura! Mas não me peçam para explicar absolutamente nada. Pois nesta hora não tenho palavras. A família está sofrendo muito. Todos diante da notícia avassaladora não têm outra reação que não seja esta: orar, orar, orar e orar. Mas também chorar, chorar, chorar e chorar.
Como entender ou buscar explicação? É irrisório! Precisamos lidar com esta bomba da vida em que não cabe qualquer teorização. Seria irresponsabilidade, como pastor daquela comunidade de fé, resumir tudo o que está acontecendo naquela realidade existencial neste jargão: é a vontade de Deus. Confesso: não tenho palavras. Sei que a maior intervenção divina veio neste domingo. Ali, naquela simples reunião, no meio de uma sala onde choramos e celebramos ao mesmo tempo um aniversário. Todos orando pela Bruna com um amor inexplicável. Carinho, lágrima, mas sorriso em saber que é um privilégio ela estar conosco. Como foi bom orar. Sim! Orar pela cura da Bruna, pois é o desejo imensurável que pulsa em nosso coração. E como crentes em Deus temos a fé inabalável de que o Senhor pode curá-la. Afinal de contas, a última Palavra ainda é de Deus.
Este domingo — ontem, 28 de Outubro de 2012 — ficou marcado em meu coração. Vivi momento de alegria misturada à tristeza, mas regada a esperança. No final de tudo a palavra que retumbou na minha mente e coração foi ESPERANÇA. A esperança de que ainda verei a Bruna vendendo saúde. Vivendo a mais bonita de toda estação da vida: a juventude. É isso! Simplesmente creio! Sem lógica, racionalização. Mas com muita emoção e sentimento representados num verdadeiro amor que, ali, naquela sala, brotou no meu coração pela bruninha.
Como disse a você, bruninha, há uma morada sua agora em nosso coração. Pois você é muito, muito especial!

Um abraço daquele que ganhou uma ovelha tão especial num pasto recheado de amor.

Bruna, nós te amamos!

P.S. Hoje, dia 18 de agosto de 2013, recebemos a notícia de que a Bruna passou para o Senhor. Com o coração triste, mas cheio de ternura e compaixão da família, quero desejar muita força para a sua mãe, o seu pai e toda a família do meu amigo e irmão Sérgio Sodré. 
A esperança agora se renova em vê-la um dia.

Até Breve, Bruna!!!!

M.O.O.
Rio de Janeiro, RJ.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

CHEIOS DO ESPÍRITO NA DIMENSÃO PROFISSIONAL

(Uma breve análise de Efésios 5.18-21; 6.5-9)

Podemos destacar a Epístola do Apóstolo Paulo aos Efésios como uma circular às igrejas da província da Ásia entre os anos 52 e 55 dC. Segundo Donald C. Stamps, o editor geral da Bíblia de Estudo Pentecostal, editada pela CPAD, esta carta pode também ser a mesma destinada por Paulo aos Laodicences (Colossenses 4.16).1
A epístola aos Efésios integra o grupo das quatro epístolas escritas na prisão, juntamente com Filipenses, Filemon e Colossenses — As Cartas da Prisão. Isto significa dizer que enquanto o apóstolo Paulo redigia a epístola aos Efésios ele se encontrava preso, provavelmente em Roma. Se pudermos cunhar um tema central da epístola, gostaria de evocar o dos comentaristas em o Novo Testamento, J. Wesley Adams e Donald C. Stamps: “Os propósitos eternos de Deus em Cristo a fim de criar entre judeus e gentios uma nova humanidade através da cruz e uma nova comunidade como o corpo de Cristo na terra”.2 No entanto, esses propósitos foram revelados à humanidade através da Igreja em Cristo Jesus como nos relata o apóstolo Paulo na sua epístola aos Colossensses: “o mistério que esteve oculto desde todos os séculos e em todas as gerações e que, agora, foi manifesto aos seus santos; aos quais Deus quis fazer conhecer quais são as riquezas da glória deste mistério entre os gentios, que é Cristo em vós, esperança da glória(1.26,27).
Em Efésios 1.15,16, Paulo destaca o amor mútuo praticado na igreja de Éfeso como consequência da fé centrada na pessoa do Senhor Jesus. E o apóstolo espera esta fé viva operando na vida daquela comunidade cristã. Os agradecimentos pessoais a Deus por essa Igreja são demonstrados por Paulo na sua oração. Nela, ele esperava que a prática do amor fraterno fosse predominante nas relações ali existentes. Neste contexto é que o apóstolo dos gentios aborda a antítese entre uma vida imersa no Espírito Santo e a existência submersa na ausência de sobriedade (5.18) evidenciada pela presença de contendas.   
Quando lemos o capítulo 5 de Efésios, sobre o tema do enchimento do Espírito, é comum nos reportarmos à experiência pentecostal do segundo capítulo dos Atos dos Apóstolos. Entretanto, é preciso situar o preclaro leitor nos contextos destes distintos escritos a fim de compreendermos a diferença semântica do termo “enchimento” cunhado por Lucas em Atos e o usado por Paulo em Efésios. No livro dos Atos dos Apóstolos o evangelista utiliza um recurso linguístico particular para citar o cumprimento literal da promessa predita por Jesus de Nazaré acerca do batismo com o Espírito Santo: “E todos foram cheios do Espírito Santo  e começaram a falar em outras línguas, conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem” (At 2.4). O nosso Senhor havia dito: “Porque, na verdade, João batizou com água, mas vós sereis batizados com o Espírito Santo, não muito depois destes dias” (At 1.5) [grifos meus]. Assim, salta aos olhos do leitor que a expressão “todos foram cheios do Espírito Santo” (At 2.4) é sinônima da “vós sereis batizados com o Espírito Santo” (At 2.4). Nesta o evangelista Lucas se refere a promessa; naquela ele refere-se ao cumprimento da mesma. Lucas está, claramente, narrando a experiência fenomenológica de poder no Espírito, literalmente profetizada por Jesus, registrada pelo próprio Lucas no seu Evangelho (Lc 24.49) e confirmada por ele nos Atos dos Apóstolos (1.4,5).
Entretanto, o texto de Efésios 5 apresenta o assunto sobre o “enchimento do Espírito” numa outra perspectiva. O apóstolo remete o leitor à ideia de que ser cheio do Espírito é uma experiência transcendental diametralmente interligada ao comportamento daquele que encarnou em si mesmo o Evangelho de Jesus. A transcendência no Espírito se caracteriza como o fruto da intimidade com Deus (vv.1-3) manifestada pelo crente na dimensão de um relacionamento de amor com o próximo. Vejamos:
(1) No versículo 18 a expressão embriagues (gr. methyskesthe)3 realça a ideia da falta de autocontrole do indivíduo; libertinagem ou devassidão (gr. asôtia)4 significa o excesso comportamental, imoralidade. Mas, a expressão “Enchei-vos” (gr. plêpousthe)5 denota a tese de ser dominado pelo Espírito, absolutamente controlado por Ele. (2) Nos versículos 19 e 20 o ser cheio do Espírito implica participar na comunidade do culto espiritual [aqui, os cânticos espirituais são consequências espontâneas do Espírito]. E a consequência disto não pode ser outra: o crente é capacitado a sujeitar-se ao outro em amor. (3) No versículo 21 a prática do amor é o resultado do enchimento do Espírito. É estar cheio de Deus, do seu amor e comunhão. Logo, a consequência natural do culto verdadeiro a Deus é uma predisposição de sujeitar-se ao outro em amor.
A mensagem de Efésios é clara e taxativa: o ser cheio do Espírito implica no amor mútuo da comunidade que se chama pelo nome do Senhor. Pois o ato de servir a Deus se dá nas dimensões vertical (Deus) e horizontal (o outro, o próximo). Na perspectiva vertical, somos chamados a amar e temer ao Senhor de todo o coração, força e pensamento (Mc 12.30); na horizontal, amar sinceramente o próximo como a si mesmo (Mc 12.31). Estas são as ordenanças do Evangelho para a vida (Mc 12.30,31).
É nessa perspectiva de espiritualidade vertical e horizontal, que o restante do capítulo cinco de Efésios — até o versículo nove do capítulo seis — falará do inter-relacionamento entre “esposo e esposa”; “pais e filhos”; “patrões e funcionários”. O apóstolo Paulo denota que ambos, em amor, devam sujeitar-se ao outro para fazer o bem e amarem-se em Jesus Cristo.  
O amor cristão deve se manifestar em todo e qualquer ambiente que demanda o relacionamento humano. Principalmente nos círculos cristãos. Entretanto, é importante ressaltar que antes de firmarmos compromissos com pessoas de diversos seguimentos — o matrimonial, o maternal, paternal e o profissional — temos laços de irmandade estabelecidos com elas numa perspectiva discipuladora de Jesus de Nazaré. Naturalmente, o amor descrito aqui, não é nem pode ser um amor de viés obrigatório, pois amor compelido não é amor verdadeiro. Este é voluntário, espontâneo e não espera nada em troca. O amor demonstrado por Jesus nos designa a ser um e somente um corpo com Ele. Por isso podemos destacar alguns desdobramentos do amor na relação profissional entre funcionário → patrão:
1. Nos versículos 5,6. Enquanto funcionários de uma empresa, nossa real motivação deve ser a do respeito, pois somos chamados a viver numa dimensão de serviço a Deus, mas também aos homens. De sorte, não há como honrar a Deus se a minha dimensão relacional com os homens de autoridade está confusa ou quebrada. É impossível viver um dualismo entre “servir a Deus” e “não servir o próximo”, pois a ideia central expressa no capítulo 5 de Efésios é essa: “sujeitai-vos uns aos outros em amor”.
2. Nos versículos 7,8. Aqui, o discípulo de Jesus é convidado a fazer o bem e se aperfeiçoar naquilo que faz, não somente por causa do patrão, mas acima de tudo por Cristo. É aí que se revela a própria realização humana, pois patrão e funcionário têm um mesmo Senhor! Não há favoritismo de Deus nessa relação. O mesmo Senhor que auxilia o patrão é o mesmo que auxilia o funcionário. NEle, ambos são irmãos.
3. No versículo 9. O tratamento dos patrões para com os funcionários deve ser no mesmo espírito dos funcionários para com os patrões: sujeição mútua. A Bíblia NVI descreve assim este princípio: “Vocês, senhores [patrões], tratem seus escravos [funcionários] da mesma forma” (Acréscimos). Aqui, não há privilégios para nenhuma parte. Logo, o princípio que norteia o relacionamento entre funcionários e patrões cristãos é o da disponibilidade de um servir ao outro em amor como quem serve ao Senhor (Ef 5.21). É incrível como o ensino do apóstolo revelado nestas linhas é revolucionário e a frente do seu tempo. Ele mostra que os patrões não apenas têm direito, mas também obrigações a respeito da dignidade dos funcionários e estes não apenas obrigações para com aqueles, mas direitos também.6 Ambos, em amor, têm direito e deveres. Contra isto, diz as Escrituras Sagradas, não há lei (Gl 5.22,23).
Se você é o patrão hoje, o que pensar sobre o que a Epístola aos Efésios diz a respeito da tua relação com o teu funcionário? E você que é funcionário, como enxergar esta relação com o teu patrão? Certa feita o nosso Senhor disse que no mundo gentílico o mais forte subjugar o mais fraco era perfeitamente normal. Mas entre nós, não! Entre nós não poderia, e nem pode, ser assim! Entre cristãos, o amor mútuo dos irmãos é quem deve sobrepujar. Então, na dimensão do Espírito Santo, cada qual exercerá o seu próprio papel, seja na função de patrão ou na de funcionário. Afinal de contas, hoje você é o patrão, mas amanhã poderás tornar-se um funcionário ou vice-versa. Mas ambos não podem se esquecer: “Sujeitai-vos um ao outro em amor” a qualquer tempo e em qualquer dimensão profissional, seja ou não cristã. Paz e bem!

Marcelo de Oliveira e Oliveira é redator do Setor de Educação Cristã da CPAD, bacharel em Teologia e professor.

NOTAS

1 STAMPS, Donald C (Ed.). Bíblia de Estudo Pentecostal: Antigo e Novo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 1995, p.1805-06.
2 ADAMS, J. Wesley; STAMPS, Donald C. Efésios. In, ARRINGTON, French L.; STRONSTAD, Roger. Comentário Bíblico Pentecostal: Novo Testamento. 2.ed. Rio de  Janeiro: CPAD, 2004, p.1193.
3 OLIVETTI, Odayr; GOMES, Paulo Sérgio. Novo Testamento interlinear analítico Grego — Português: Texto Majoritário com Aparato Crítico. 1.ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2008, p.734.
4 OLIVETTI, Odayr; GOMES, Paulo Sérgio, 2008, p.734.
5 Ibidem.
6 HAVENER, Ivan. Efésios. In, BERGANT, Dianne; KARRIS, Robert J. (Orgs.) Comentário Bíblico. 3.ed. vol. 3. São Paulo: Edições Loyola, 2001, p.251.

Artigo publicado no Jornal Mensageiro da Paz, órgão oficial das Assembleias de Deus, do mês de Maio. 

sábado, 6 de abril de 2013

Zé Cláudio e Maria: julgamento dos acusados


Zé Cláudio e Maria: julgamento dos acusados


Foto: Felipe Milanez
Foi lamentável o resultado do julgamento dos acusados pelo assassinato dos extrativistas José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo, mortos há dois anos, no assentamento Praialta-Piranheira, em Nova Ipixuna, sudeste do Pará.
 
Ontem (4/4), o júri popular absolveu o pecuarista José Rodrigues Moreira, apontado pelo Ministério Público como mandante da morte do casal. O irmão dele, Lindonjonson Silva Rocha, foi condenado a 42 anos e oito meses, por ter armado a emboscada, e Alberto Lopes Nascimento, apontado como autor do duplo homicídio, a 45 anos. 

A justificativa para a sentença foi a falta de provas que ligassem Moreira aos crimes.  Como resposta a promotoria anunciou que vai recorrer da decisão, proferida pelo juiz Murilo Lemos Simão. Os representantes de movimentos sociais que acampavam em frente ao fórum protestaram fechando a rodovia Transamazônica e apedrejando o prédio onde foi realizado o julgamento.

Em nota, a Anistia Internacional afirmou que "a impunidade dos crimes cometidos contra defensores de direitos humanos fortalece a ação daqueles que agem fora da lei e contra a preservação dos bens naturais do país. E mantém a luta dos defensores e defensoras dos direitos humanos como uma atividade de alto risco, na qual agressões e ameaças buscam sempre silenciar sua voz."

Enquanto não se tem uma nova resposta da Justiça à ação da promotoria, o clima de tensão e medo continua para Laísa Santos Sampaio, irmã de Maria do Espírito Santo, e uma das testemunhas de acusação. Ela está sofrendo ameaças de morte e, com a soltura de Rodrigues, fica ainda mais vulnerável. (saiba mais)

A Rede Sustentabilidade continuará a acompanhar o caso, ciente de que a solução para evitar crimes como este - e outros motivados pela disputa de terras para produção agropecuária -passa pela atuação efetiva do Estado. “No momento em que o governo abre mão de fazer esse papel, deixa a disputa acontecer entre forças que estão extremamente desiguais”, lembra Adriana Ramos, do Isa. Leis para garantir os direitos territoriais de comunidades já existem. O que falta é defendê-las e colocá-las em prática.
Meu comentário: O que esperar de um país que não tem a ousadia de intervir numa região absolutamente sem lei. Quantos Zés Cláudios, marias, irmãs Doroty precisarão morrer para que se escute o clamor desses sangues derramados. Alio-me ao posicionamento da ex-senadora Marina Silva. O estado brasileiro precisa intervir no Estado do Pará. Precisa fazer valer a lei que regulamenta os direitos territoriais das comunidades que vivem da terra. Os extrativistas não podem continuar matando pessoas a bel-prazer com a certeza da impunidade. 
Espero que como eu, você fique indignado com mais uma das milhares de injustiças presentes no Estado brasileiro.  

quarta-feira, 20 de março de 2013

DOM HELDER CÂMARA – IRMÃO DOS POBRES, PAI DA IGREJA


Dom Hélder Câmara – o arcebispo dos pobres

No dia 27 de agosto de 1999 falecia Dom Hélder Câmara aos 90 anos de idade. Uma vida entregue totalmente a Deus, à Igreja e aos pobres.
Lembrá-lo é gratidão, é reverência por quem deu a vida pelos pobres, pelos pecadores, pela humanidade.
Nascido em Fortaleza em sete de fevereiro de 1909, foi ordenado presbítero em 15 de agosto de 1931, bispo auxiliar do Rio de Janeiro em 20 de abril de 1952 e promovido a arcebispo de Olinda-Recife em 12 de março de 1964. É um dos grandes bispos que trabalharam na Igreja no Brasil empenhando cada dia da existência na aplicação das orientações do Concílio Vaticano II, no espírito de uma Igreja pobre para os pobres e com os pobres.

Homem de Igreja


Sonhando com união de todos os  bispos brasileiros numa grande assembléia pastoral e fraterna, surgiu a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB-1952). Dom Hélder Câmara, foi seu primeiro secretário. Contava com o estímulo e o apoio de Giovanni Battista Montini, depois Papa Paulo VI (1963-1978), um entre os maiores papas da história da Igreja. O mesmo ideal foi lançado em nível continental, e surge o CELAM (Conferência Episcopal latino-americana-1955).
O arcebispo de Olinda-Recife (1964-1985) foi um dos bispos mais atuantes do Concílio do Vaticano II (1962-1965). Mas, estranhamente, nunca tomou a palavra durante as sessões. Era um santo conspirador. Sabia ele, bispo de um país pobre e distante que, influência mesmo, tinham os altos e fortes bispos europeus, inteligentes, famosos, cercados dos melhores teólogos do mundo. O que fazia, então, Dom Hélder? Gostava de transmitir seu ideário ao grande bispo de Brixeles-Malines, o Cardeal Leo Suenens. E na hora certa, Suenens falava para uma assembléia que o conhecia e respeitava. E Dom Hélder, o cearense baixinho, frágil, sorria feliz por ver os novos caminhos pastorais que a Igreja ia assumindo. Não tinha interesse de aparecer, pois lhe interessava mesmo era ver a Igreja sempre mais comprometida com seus filhos, com toda a humanidade.
Paulo VI nutria grande afeto pessoal por Dom Hélder, que o visitava como amigo. Ajoelhava-se pertinho do Papa, batia com as mãos em seus joelhos e dizia: “Coragem, Santo Padre, coragem!” Lembrava, nessas horas, Santa Catarina de Siena, jovem, analfabeta, que no século 14 tomava a mesma atitude com o Papa Gregório XI: “Coragem, paizinho meu, seja homem!” Queria que deixasse Avignon e fosse morar em Roma, o que conseguiu.

Pastor de uma Igreja pobre e materna


Logo após o Concílio, numa dessas conversas com Paulo VI sugeriu: “Santo Padre, abandone seu título de rei e vamos reconstruir a Igreja como nosso Mestre, sendo pobres. Deixe os palácios do Vaticano, vá morar numa casa na periferia de Roma. Pode até ter uma praça para saudar e abençoar as ovelhas. Depois, Santo Padre, convide a todos os bispos a largarem tudo o que indica poder, majestade: báculos, solidéus, mitras, faixas peitorais, batinas roxas. Vamos amontoar tudo na Praça de São Pedro e fazer uma grande fogueira, dizendo de peito aberto para o povo: “Vejam, não somos mais príncipes medievais. Não moramos mais em palácios. Todos somos pastores, somos pobres, somos irmãos”.
Dom Hélder fez isso quando foi nomeado arcebispo de Olinda-Recife. Vestiu uma batina branca, com um cordão pendurou uma cruz no peito; deixou o Palácio dos Manguinhos e foi morar na sacristia da Igreja das Fronteiras. Ergueu uma parede para fazer um quartinho, onde tinha a cama e uma mesa para estudar e escrever. Nunca mais vestiu outro paramento que uma túnica branca e a estola, nem nas mais solenes procissões. Quando ia a recepções em Roma, bispos, arcebispos e cardeais brilhavam nas sedas e púrpuras. Entrava Dom Hélder, baixinho, pobre, vestido apenas com sua batina branca, e as câmaras se afastavam do brilho das vestes para focalizar o brilho carismático de um pastor.
Um pequeno e seleto grupo de bispos assumiu o mesmo compromisso após o Concílio, colocando-o em prática ao retornar a suas dioceses, decisão essa denominada “o Pacto das Catacumbas”.
E, podemos perguntar, o que fez o Papa? Que grande Papa foi Paulo VI! A tiara (coroa tríplice que indicava seu poder como bispo, rei e patriarca) foi doada para que, com o dinheiro da venda, se ajudasse os pobres. Para indignação dos romanos, aboliu os cumprimentos e a presença da nobreza romana dentro do Vaticano. (Na época os jornais italianos desenhavam caricaturas em que o Papa varria príncipes, princesas, marqueses, duques e condes pelas escadarias do Palácio apostólico). Aboliu os flabelli (imensos leques de plumas das cortes orientais que os príncipes abanavam junto ao trono pontifício) e as pompas que o Papado tinha imitado e importado das cortes medievais do Império do Oriente. E mais, deu os passos decisivos para abolir seu título de “Rei” do Estado do Vaticano, decisão tomada por João Paulo II, agora administrado por um simples Cardeal.
Papa Montini tinha muito carinho por Dom Hélder. No auge da ditadura militar, quando queriam prendê-lo, expulsá-lo do país para que calasse a boca, o Papa fazia saber pelos canais diplomáticos que não aceitava que mexessem com o arcebispo de Olinda-Recife, nem com Dom Paulo Evaristo Arns, nem com Dom Pedro Casaldáliga, nem com nenhum dos bispos-profetas brasileiros. Os militares se vingaram prendendo e torturando padres, religiosos e leigos…

Pastor da misericórdia


Certa vez, em pleno meio-dia, uma senhora pobre, não tendo onde se refugiar, colocou-se debaixo do altar-mor da histórica Basílica de Nossa Senhora da Penha do Recife e deu à luz seu filho. Povo e imprensa protestaram: “Pouca vergonha. É nisso que dá deixar a igreja aberta e ter um bispo comunista. Não se respeita nem a tradição!”. Dom Hélder, ao saber da notícia, ficou muito feliz. Reuniu os padres capuchinhos que administravam a igreja e falou: “Que beleza a igreja ser lugar onde nasce uma criança, lugar de vida. Deixem-na sempre aberta, para que mais mulheres pobres possam ter seus filhinhos dentro dela!”.
Noutra ocasião, a tradicional imprensa pernambucana noticiava a sem-vergonhice de uma prostituta: estava fazendo ponto quando na rua adjacente um pobre caiu, desmaiado, vertendo sangue por uma ferida. Condoída, a prostituta não pensou duas vezes: arrancou o pouco de pano que cobria seu corpo e fez uma atadura para estancar o sangue do infeliz. Evidente, ficou nua, um escândalo para os que estavam passando, catando prostitutas para programas: “Aonde chegamos com a imoralidade!”.
Lendo a notícia, o arcebispo teve assunto para vários sermões: “Vejam, meus irmãos, que beleza que é Nosso Senhor. Ele disse que as prostitutas nos precederão no Reino dos céus. Foi o que aconteceu com essa mulher: não tinha nada para dar, e deu do pouco que tinha, os paninhos que cobriam seu corpo, para salvar a vida do pobre, não tendo receio de afrontar a humilhação e os desaforos”.
Estava Dom Hélder distribuindo a Comunhão quando um homem embriagado aproximou-se para comungar. Movido pela compaixão, Dom Hélder deu-lhe o Corpo do Senhor. Ao final da Missa, uma devota aproximou-se e o questionou: “O senhor não percebeu que o homem estava bêbado? Como então lhe deu a Comunhão?” O bom arcebispo logo respondeu: “Minha senhora, eu vi que o irmão estava bêbado. Mas dei-lhe a Comunhão porque não sei o motivo pelo qual bebeu!”. Assim agem os cristãos conduzidos pelo seguimento da misericórdia do Senhor.

Purificado na noite escura


Dom Hélder, em Janeiro2007
Dom Hélder Câmara, com sua irmã, nos últimos meses de vida.

Em 1968 um golpe militar no golpe de 64 estabeleceu a ditadura no Brasil. Anos de escuridão política, econômica, humana, intelectual. O regime, aliado à poderosa e maquiavélica Rede Globo, estabeleceu a censura nos jornais, revistas, rádios. Quis estabelecê-la na Igreja, prendendo, torturando e assassinando líderes cristãos.
Dom Hélder, já em Recife, pagou o seu quinhão. Pe. Henrique, seu secretário, foi seqüestrado, torturado e assassinado, espalhando-se suspeitas horrorosas sobre a morte dele, para indiretamente atingir seu objetivo: Dom Hélder..
Como não podiam calar nem prender Dom Hélder, proibiu-se de ouvi-lo. Até meados dos anos 80 seu nome não podia mais ser publicado ou pronunciado. As novas gerações brasileiras não conhecem Dom Hélder.
Devido a suas viagens para o exterior, apelidaram-no de “arcebispo voador”, pastor irresponsável que não cuida do rebanho. Era mentira: eram algumas semanas por ano, quando ele peregrinava pelo mundo denunciando o armamentismo, o aumento da dívida externa, participava do Movimento internacional com os pobres “Mãos Estendidas” e lançava o grande projeto de um Ano 2000 sem fome.
Um cronista carioca escreveu que o problema desse bispo comunista era mulher: arrumando-se uma esposa para ele, sossegaria…
Mesmo na Igreja não lhe foi poupado o sofrimento, a incompreensão, a dúvida sutil sobre suas intenções. Seu Seminário e Instituto Teológico, formadores de uma geração de padres comprometida com os pobres, foi fechado compulsoriamente. A Missa dos Quilombos, tentativa de uma liturgia negra, foi vetada. Chegando à idade de 75 anos, quando os bispos pedem dispensa do ministério, foi-lhe comunicado por telefone o nome do novo arcebispo de Olinda-Recife. Com o coração ferido, Dom Hélder pôs-se a chorar. Não por causa do nome, mas porque nem sabia quem era o escolhido. Não se reverenciou a obra e a pessoa de alguém que teve alguns erros e opções talvez equivocadas, mas deu o testemunho de um sim contínuo e alegre à Igreja e ao povo de Deus. O novo arcebispo pareceu não ter outra preocupação do que destruir a memória, as pessoas  e as obras de Dom Hélder Câmara.

No silêncio que santifica


Dom Hélder Câmara
Dom Hélder Câmara

Continuando a habitar em sua sacristia, Dom Hélder recolheu-se no silêncio: nunca uma palavra, uma crítica, uma declaração. Aliás, ele jamais se defendia de qualquer acusação. Os santos têm a capacidade de purificar o mundo pela dor, pelo silêncio, pela oração. Como sempre fez como arcebispo, continuou a se levantar de madrugada, abrir a janela, e orar por sua amada Olinda-Recife.
Suas vigílias deram-lhe forças espirituais e morais ao longo de sua vida.
Nos fim de sua vida, três jovens diáconos vão pedir-lhe a bênção antes da ordenação presbiteral. Dom Hélder era padre há 65 anos! Ergueu-se, abriu os braços e falou para os três como se estivesse falando para uma multidão: “Meus filhos: para mim, ser padre é algo tão grandioso que tudo o mais se torna pequeno”. Depois, segurando a cruz peitoral com as mãos, com mais calor ainda: “É verdade que a vida de padre é pesada, mas a vida é uma graça imensa!”


Meu Comentário:
Quem tem o verdadeiro significado do Evangelho encarnado dentro de si é impossível não se emocionar com um texto desse. Penso que a  Igreja Evangélica Brasileira só poderá ter credibilidade neste país se os seus líderes começarem por tomar a mesma decisão de Dom Hélder como exemplo.

M.O.O.
Rio de Janeiro - RJ.


terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Um conselho para os pregadores:



"Não tentem tornar a Bíblia relevante. Sua relevância é axiomática [...]. Não defendam a Palavra de Deus, mas deem testemunho dela [...]. Confiem na Palavra."

(Dietrich Bonhoeffer)


P.S. METAXAS, Eric. BONHOEFFER: Pastor, Mártir, Profeta, Espião. 1.ed. São Paulo: Mundo Cristão, 2011, p.291.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Bento XVI renunciará ao papado

O mundo acordou surpreendido na manhã de hoje. O papa Bento XVI anunciou que no dia 28 de Fevereiro, a partir das 20hs, deixará o cargo mais alto do Vaticano. Uma notícia que atingiu em cheio a organização da Jornada Mundial da Juventude que se realizará na cidade do Rio de Janeiro, no mês de Julho. Alegando problema de saúde física, Bento XVI afirmou não reunir mais condições  normais para enfrentar os grandes compromissos e desgastes de um cargo de dimensões complexas. O Bispo de Roma já dava indício de uma possível renúncia, como por exemplo, numa entrevista a um jornalista alemão, na obra publicada pela editora Paulinas - Luz do Mundo - Bento XVI afirmara que não ficaria no papado se após a um profundo exame de consciência constatasse a sua incompatibilidade física de prosseguir com o cargo. Com essa renúncia, o maior intelectual católico romano denota a necessidade de uma renovação na cúria romana.
O Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Orani Tempeste, em entrevista a imprensa para informar como a organização da Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro vê essa renúncia, também disse que Bento XVI chegou a falar se ele não fosse à Jornada o seu sucessor iria - pois desde 1980 é padrão o papa romano comparecer às todas as Jornadas Mundial da Juventude.
É natural que essa notícia faça sugerir possíveis nomes para a sucessão de Bento XI. Além de bispos latinos-americanos da Colômbia, da Argentina (dois) e do Peru, o nome do brasileiro Dom Odilo Sherer, Arcebispo de São Paulo, é muito bem lembrado. Mas essas especulações não passa disso, especulações. Como dizem os especialista da política no Vaticano: "No conclave, quem entra Papa sai Cardeal".
A renúncia do Papa Bento XVI trás, sem dúvida, muita reflexão para a nossa prática de governo eclesiástico. Perguntas como:
  1. Qual é a hora de um pastor parar? 
  2. O pastorado é vitalício?
  3. Como conciliar a linha tênue "renúncia pastoral" e "saúde da igreja"?

Devem ser respondidas após um sério exame de consciência e honestidade para conosco e as pessoas com quem lidamos. A natureza do cargo pastoral é divina, pois é Deus quem chama e vocaciona. Mas é humana também, pois é preciso saúde física e psicológica para exercê-lo com plenitude e competências físicas e espirituais.

P.S. Numa perspectiva da História Eclesiástica, estamos vivendo um momento histórico. Em toda a história dos papas romanos apenas um renunciou por vontade própria, foi na Idade Média: o Papa Celestino V - 1294. Bento XVI é o segundo Papa em toda a história da igreja romana a renunciar por livre e espontânea vontade. Acho interessante a análise de um especialista em fé e cultura da PUC - SP, quando ele responde a um jornalista sobre como o Papa ficará conhecido na história. Ele diz: "João Paulo II foi o Papa que fechou o ciclo do Modernismo. Bento XVI é quem abriu o ciclo do Pós-Modernismo".  

M.O.O.
Rio de Janeiro, RJ.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Quando virtudes podem virar vícios

Ricardo Gondim

Genialidade e loucura caminham próximas. De médico, juiz, comentarista de futebol, teólogo e doido tudo mundo tem um pouco. Não faltam histórias de pessoas inteligentes com um parafuso frouxo. Se gênios vivem entre a excepcionalidade e o lunatismo, todos, com atos e atitudes, perigam desequilibrar, tingindo a vida com a cor da maldade.
Bibliófilo assumido, gosto de sebos. Certa vez, caminhando pelos corredores empoeirados de um alfarrábio, notei uma enorme quantidade de livros empilhados; todos da mesma pessoa. O gerente relatou  que aqueles livros pertenceram a um burocrata, desses incansáveis batedores de ponto, que não tira férias. Chegou um novo chefe do departamento e diante da necessidade de re-organizar o setor, o impoluto empregado se viu obrigado a sair de férias – depois de 17 anos. Cumpridos os trinta dias de afastamento, o homem voltou para uma nova sala;  móveis, armários, cadeiras, tudo estava “fora do lugar”.
Revoltado com a nova disposição, o rígido e obediente funcionário não conseguiu se adequar. No sofá, onde gostava de ler, colocou o cano da pistola na boca e puxou o gatilho. O minucioso zelo pelo trabalho, a obsessiva disciplina, a inconformidade aos novos ventos, aprofundaram sua neurose. Pareceu-lhe melhor morrer a ter que amargar as transformações que o tempo impõe. Entre os livros empilhados, comprei um para nunca esquecer aquela história.
Sim, virtudes podem adoecer. Inteligência não previne sociopatia. Conservadorismo não significa saúde mental.
Sinceros correm o risco de se tornarem inconvenientes. É desagradável conviver com a transparência dos que têm o dever de se mostrarem cândidos. Calar certas verdades que vimos nos outros muitas vezes não é mentir, apenas respeitar. Dizer o que “dá na telha”  nem sempre expressa franqueza. Muitas vezes “confrontação” não passa de desejo de vingança. Sinceridade deve vir precedida pela graça.
Toda virtude pode descambar em vício. Os corajosos devem cuidar para não permitir que coragem se transforme em obstinação – e teimosos correm o risco de atropelar pessoas e sentimentos. Intrepidez sem equilíbrio pode transformar-se em obsessão.  Zelo sem moderação pode degenerar em ativismo. Diligentes, absorvidos no dever, podem sofrer da síndrome da “trabalholatria”. Justos mal sabem que messianismo lhes espreita em cada esquina.  Só se aproveita a integridade quando ela não induz à auto-veneração. Extrapolar na busca da perfeição desencadeia preciosismo, que leva à meticulosidade asfixiante. Gente exageradamente criteriosa se considera palmatória do mundo, xeretando o que não deve.
Fé pode degringolar no sério desvio da credulidade, deixando a pessoa sem bom senso. Provérbios afirma: “O inexperiente acredita em qualquer coisa, mas o homem prudente vê bem onde pisa” (14.15). No extremo oposto, fé pode gerar presunção; pessoas se imaginam com tanta certeza espiritual que alucinam, acreditando poderem se antecipar ao que Deus faria.
Andar ao lado de pessoas obcecadas por exigências sobre-humanas pode adoecer. Melhor caminhar com quem vive com leveza. Vale conviver com quem sabe relaxar, rir de si  mesmo e celebrar a vida despretensiosamente.

Soli Deo Gloria

Fonte: http://www.ricardogondim.com.br/meditacoes/vicios-e-virtudes/

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Santa Maria/RS: “propósito divino”, “contingência” e corrupção


Em respeito à tragédia que sucumbiu as vidas de 235 pessoas, na cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, não fiz nenhuma postagem durante esses dias. Tenho dificuldades de voltar a normalidade da vida após um momento de luto. Talvez seja por herança familiar. Lembro-me da minha avó desligando a televisão e chamando atenção dos netos, entre eles eu, que falavam alto no período de dias em que se deu um falecimento. É o respeito às pessoas enlutadas que me faz não ter o direito de me divertir, entreter ou comemorar alguma coisa — muito menos a de usar esta tragédia para engrandecer o meu nome como arauto da “reta doutrina” — no momento de dor. Sinto vergonha se isto acontece. É pessoal. Penso que não tenho direito nem de rir em respeito daqueles que choram. Repito, é pessoal. Mas cristão também.
Também acho que pessoa alguma tem o direito de, nesse momento, fazer “exegese” das causas teológicas da tragédia. Não é hora para isso. Há propósito divino nessa tragédia? Não sei. É contingência da vida? A tragédia poderia ser evitada? Certamente que sim. Aqui está o “x” da questão. Se aquela banda não fizesse pirotecnia, haveria a tragédia? Se a casa de shows cumprisse as normas de segurança, vidas poderiam ser salvas? Se as autoridades locais fiscalizassem honestamente a Kiss, esta incendiaria? Se não houvesse o emaranhado de corrupção burocrática, a fiscalização não seria eficaz e honesta?
Sim. Há um causador disso tudo. E não é o Deus de amor e justiça. É o Homem. Ele é quem escolhe a corrupção e a maldade. Ele é o facínora. O empresário com a sede de enriquecer a todo custo, colocando a segurança das pessoas em risco. A autoridade que, locupletada com ele, o empresário, não o investiga para não correr o risco de perder doações milionárias para campanhas políticas. A sociedade que se omite, assistindo tudo isso e fazendo de conta que vive no melhor país do mundo — futebol, carnaval, copa e olimpíadas. E Deus, onde Ele está nisso tudo? No mesmo lugar; agindo para que o empresário, a autoridade e a sociedade se arrependam dos seus Pecados e façam o que é correto em relação ao próximo (Lc 3.14). 
Amanhã, veremos os dois políticos mais corruptos do Brasil serem eleitos para os cargos mais importantes da república. E o que isso tem haver com Santa Maria, “contingência”, “propósito divino” e corrupção? Tudo. As maracutaias continuarão. As propinas serão a grande moeda de troca de favores para se abrir ou fechar casas de show. A população estará nas mãos desses políticos comprometidos com o sistema político atual. Este é a causa principal da corrupção brasileira. Enquanto isso a blogosfera evangélica “teologa entre si” e “o pai do jovem lunático fica atordoado vendo o seu filho sofrer, mas ninguém para curá-lo” (Mc 9.14-18) — com a ressalva das devidas exceções.
Se você está indignado, como eu, acesse o link abaixo, enviado pelo meu amigo e irmão Marcos Rodrigues e faça alguma coisa para registrar a sua indignação. Não podemos perder essa capacidade de indignar-se.

https://www.facebook.com/antonio.c.costa1/posts/459878610733057

Não. Essa tragédia não precisava acontecer pela simples irresponsabilidade das pessoas e entidades envolvidas.

Nele, que pode usar esta tragédia para nos despertar da letargia.

Paz e Bem!

M.O.O.
Rio de Janeiro, RJ.


SENADO DA REPÚBLICA VIRA AS COSTAS PARA A OPINIÃO PÚBLICA

O senador Renan Calheiros, PMDB/AL, atualmente denunciado pelo procurador-geral da República, é eleito com a esmagadora maioria do Senado Federal com 56 votos. Enquanto o senador Pedro Taques, PDT/MT, obteve 18 votos.

Repito, a ampla maioria do Senado Federal, a "Casa do Povo", mais uma vez não ouviu o povo.

Com lamento,

M.O.O.
Rio de Janeiro, RJ.

RENAN, NÃO!


Com o número total de assinaturas da petição-online que pede a eleição de um ficha limpa para a presidência do Senado -- e contra a possibilidade de eleição do senador Renan Calheiros, que foi denunciado pela Procuradoria Geral da República por suspeita de fraudes, este é o cartaz que será levado nesta sexta-feira ao Congresso Nacional por movimentos anticorrupção, como o Rio de Paz e o 31 de julho. O banner foi feito pelo Avaaz, uma comunidade de mobilização on-line, que já tem mais de 18 milhões de participantes em todo o mundo. Até agora, a petição contra Renan já atingiu mais de 278 mil assinaturas.
O senador Pedro Taques havia se comprometido a ir à tribuna do Senado depois que a petição atingisse a marca de cem mil assinaturas. Seu pronunciamento deve ocorrer hoje, se a presidência do Senado não impedir as manifestações dos parlamentares antes da eleição.


quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Imagem e semelhança

Dora Kramer - O Estado de S.Paulo

Não surpreende a sem cerimônia com que o Congresso se prepara para eleger presidentes de suas duas Casas um deputado e um senador cujas trajetórias colidem com o decoro formalmente exigido para o exercício da atividade parlamentar.

A razão da naturalidade é a pior possível: o Parlamento não se dá ao respeito e isso não causa espanto nem move forças suficientes para mudar o curso da triste história.

A menos que o inesperado faça uma surpresa, daqui a duas semanas Henrique Eduardo Alves e Renan Calheiros serão os escolhidos para presidir a Câmara e o Senado, respectivamente, pelos próximos dois anos.

Ungido por força de um acordo de rodízio entre PT e PMDB firmado ainda no governo Lula, na reta final Alves está envolto em atmosfera de irregularidades relativas à destinação de emendas e verbas de representação parlamentar.

Antes, em 2002, havia sido obrigado a abrir mão da candidatura de vice-presidente da chapa de José Serra em decorrência de informações dadas pela ex-mulher, Mônica Azambuja, em processo de divórcio litigioso, sobre depósitos de R$ 15 milhões em contas sem a devida declaração, em paraísos fiscais mundo afora.

No quesito folha corrida, Calheiros quase chega a dispensar apresentação. É alvo de investigações por crime ambiental, é suspeito de comandar emissoras de rádio por meio de testas de ferro, em 2007 foi processado por falta de decoro parlamentar porque uma empreiteira pagou a pensão da filha que teve com a jornalista Mônica Veloso, na ocasião apresentou documentos fraudulentos ao Senado para comprovar rendimentos e finalmente renunciou à presidência da Casa em troca da manutenção do mandato.

A maioria dos senadores aceitou o escambo e o inocentou na votação secreta em plenário. A maioria, agora, ao que tudo indica, não vê nada demais em reconduzi-lo ao posto para cujo exercício era tido como moralmente impedido há seis anos.

Tanto tem consciência do disparate, que Calheiros é candidato na condição de sujeito oculto: ainda não se lançou oficialmente para reduzir o tempo de exposição a eventuais protestos.

Ao que se vê, no entanto, medida cautelar desnecessária, pois a despeito de resistências aqui e ali e de tentativas de apresentar candidaturas alternativas, não há disposição, interesse, força nem capacidade para reações.

E que não se culpe Henrique Alves ou Renan Calheiros por almejarem posições para as quais se exigiria o cumprimento estrito do manual da boa conduta. Ambos jogam para o futuro de suas carreiras nos Estados de origem, Rio Grande do Norte e Alagoas, territórios dominados e desprovidos de massa crítica.

O problema aí não é de quem pleiteia, mas de quem aceita de boa vontade e compactua com o pleito: governo e Congresso.

Ao Planalto pode até desconfortar o excesso de poder nas mãos do PMDB, partido de Alves e Calheiros. Mas, convenhamos, não desagrada que os dois eleitos sejam líderes feridos, sem a plenitude da credibilidade.

Já o Congresso não vota o Orçamento, defende mandatos de condenados, não examina vetos presidenciais, faz troça do instituto da CPI, deixa o governo pintar e bordar com medidas provisórias, debita na conta do contribuinte imposto de renda devido por suas excelências, só se mobiliza em defesa dos próprios privilégios, submete-se ao Executivo em troca de qualquer cafuné.

Sendo assim, nada de novo no front: Alves e Calheiros são comandantes à altura de um Parlamento em situação falimentar.

Fantasia chavista. Barack Obama tomou posse ontem de seu segundo mandato. Que diria o mundo se, doente, internado em outro país, o presidente dos Estados Unidos fosse considerado empossado em regime de continuidade com o aval da Suprema Corte sob a justificativa de que a norma constitucional é mera formalidade?

Fonte: http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,imagem-e-semelhanca-,987177,0.htm. Acesso 23. Jan.

COMENTÁRIO

O texto de Dora Kramer retrata o que eu falei anteriormente. O que podemos esperar de um modelo político podre como esse instalado na política brasileira?

M.O.O

Rio de Janeiro, RJ.

 

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

POLÍTICA: NEM SITUAÇÃO NEM OPOSIÇÃO, EU MARCO POSIÇÃO


Prezado leitor, você cansou da paralisia política que se instaurou no Brasil? Da recusa do executivo e do legislativo de debaterem os assuntos fundamentais para a nação, sem o interesse de A ou B, mas simplesmente pelo bem estar da sociedade? Da velha dualidade da “situação pela situação” e “oposição pela oposição”? Do fisiologismo político?
Então, lhe convido para fazer parte de uma revolução virtual que vem ganhando voz desde 2011. É o movimento da Nova Política, mas conhecido como os sonháticos. São pessoas comuns, trabalhadores diversos, gente da sociedade civil que se tornaram sujeitos autorais de uma proposta nova para a política no Brasil. Dentre os membros desse movimento estão aqueles que apóiam a criação de uma nova sigla partidária e outros que preferem continuar lutando independente de uma legenda. Estou entre os que apóiam a criação de um novo partido para marcar o rompimento com o atual modelo político praticado no Brasil.
O atual modelo político brasileiro é corrupto e corruptor. Ele obriga o cidadão a procurar caminhos, no mínimo obscuro, para atingir o seu objetivo político. Ele desincentiva a discussão profunda de temas essenciais para o interesse da nação. Por exemplo, o Pré-Sal. Temos um Congresso que só quer saber do dinheiro desta riqueza nacional. Mas não há uma linha de discussão sobre a tecnologia que se usará, que empresa será parceira da Petrobrás, quanto será o investimento, para onde será direcionado o recurso do Pré-Sal — Educação, Saúde, Segurança Pública — etc. Só se fala sobre quem receberá o dinheiro.
As igrejas evangélicas também têm responsabilidades com tema. Nossos representantes são eleitos dentro deste sistema corruptor. É natural que eles pratiquem atos nada republicanos, muito menos cristãos. Penso que está na hora de pensarmos o que queremos para o Brasil e agirmos. Não podemos nos omitir. Sejamos uma voz partidária ou apartidária. Juntos, podemos e nos faremos ouvir.
Portanto, lhe convido a participar hoje, às 19hs, do encontro dos sonháticos com Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente e ex-senadora da República. O encontro se dará na rua Fidalga, 521 – Vila Madalena, São Paulo, para quem mora na cidade. Ou através do site Nova Política —  http://novapolitica.com.br/ — com transmissão ao vivo — quem não tem cadastro no site precisará se cadastrar para assistir. A reunião entre o coletivo pró-partido e Marina Silva objetiva propor a viabilidade da criação de uma nova sigla. Participe dessa ampla construção. Convido-lhe a marcar posição. É disso que o Brasil precisa. Pessoas que se posicionem.


Paz e Bem!

M.O.O.
Rio de Janeiro, RJ. 

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Senador Roberto Requião escreve ao Genizah. Assunto: Comércio da fé na TV

Senador da Republica atende ao anseio dos blogueiros apologéticos e responde ao desafio feito nas redes sociais pelo fim do vergonhoso comércio religioso na TV aberta.

Roberto Requião foi três vezes governador do Paraná e prefeito de Curitiba. Hoje é Senador da República, Presidente da Rep. Bras. no Parlasul e Presidente da Comissão de Educação e titular das Comissões de Constituição e Justiça e de Assuntos Econômicos do Senado Federal. Requião enviou na última terça-feira (8/01/13) a seguinte carta ao Genizah:

Danilo Fernandes, que em seu perfil no twitter identifica-se como “cristão protestante e blogueiro diletante da arte de aporrinhar falsos profetas e vendilhões da fé”, diz que está orando “para que surja um político que tenha gana de passar uma lei acabando com o comércio religioso na TV”.
Eu topo, desde que o povo evangélico e católico, e os bons e sinceros cristãos protestantes como o Danilo, também dêem suporte á ideia.
Na verdade, o comércio religioso na TV, de que crença seja, incomoda-me há bom tempo. Nos dois últimos períodos em que governei Paraná, entre 2003 e 2010, era constantemente solicitado a ceder o espaço frontal do Palácio Iguaçu a grandes “happenings” desta ou daquela denominação evangélica. No centro das prédicas, a convocação dos fiéis para que pagassem os espaços que as denominações haviam comprado em emissoras de televisão.
Para que o apelo tivesse maior impacto, o pedido de dinheiro era entremeado de uma série de “milagres”. Cegos que recuperavam a visão, entrevados que, de repente, andavam lepidamente, vítimas de câncer, lombalgia ou espinhela caída que se viam livres da doença e dos incômodos.
Como cristão, não desfaço dos milagres, da intervenção sobrenatural, do incrível poder da fé. O que não posso aceitar são esses espetáculos de cura, essa evocação dos poderes de Deus como se eles fossem a mais banal das banalidades. Penso que a intervenção dos Conselhos Regionais e do Conselho Nacional de Medicina, dos Ministérios Públicos Estaduais e do Ministério Público Federal, ou para atestar a seriedade dos portentos ou para desmascarar os charlatães, seria não apenas desejável e sim obrigatória.
Não estou propondo a intervenção da ciência, do Estado, da Justiça nos assuntos da religião. Quero apenas que se separe o joio do trigo, como ensinam as Escrituras. O paralelo que o Danilo Fernandes faz entre os vendilhões do Templo com os vendilhões da fé, é irretocável.
Como também parece inevitável o paralelo entre o comércio da fé hoje e o comércio da fé nos estertores da Idade Média. A venda de indulgências, por exemplo, que provoca os protestos pioneiros do inglês John Wycliffe, dos tchecos Jan Huss e Jerônimo de Praga, antecessores das reformas propostas pelas 95 teses de Lutero, equipara-se, hoje, à venda da cura, da felicidade, da prosperidade, da salvação eterna, desde que você contribua financeiramente com as igrejas e os pastores televisivos.
Três vezes governador do Paraná e prefeito de Curitiba estabeleci com as igrejas evangélicas e católica parcerias magníficas, de grande resultados. Meus dois grandes companheiros em inúmeras iniciativas sociais eram, de um lado, o pastor Pimentel, da Assembleia de Deus e, de outro, o bispo católico Dom Agostinho Sartori. Quer no Governo, quer na Prefeitura testemunhei o papel essencial, vital que as igrejas desempenham na promoção humana, na solidariedade, na transformação das pessoas.
Abri a televisão pública estadual às igrejas, para que elas propagassem a fé e difundissem conceitos éticos e morais. Organizei festivais de música gospel, com a participação de todas as denominações religiosas. Procurei deixar bem clara a minha posição de respeito às igrejas e ao papel que desempenham na construção do processo civilizatório, na formação da cidadania.
Nada disso vejo na “igreja da televisão”. Elas pedem, mas não dão; elas prometem prosperidade, riqueza, desde que você pague. Com seu enorme poder de comunicação, não lideram campanhas em favor dos mais pobres, por hospitais, creches, pela redução da mortalidade materno-infantil, pela erradicação do analfabetismo, pela frequência escolar, contra o trabalhão escravo e contra a exploração da mão-de-obra infantil.
Quando lançou suas teses em 1517, Lutero dizia que cada protestante era “um pouco hussita”, lembrando o assassinato na fogueira do padre tcheco um século antes, condenado ao martírio por sua radical oposição ao comércio da fé. Sejamos também “um pouco luteranos” na firme oposição aos vendilhões de fé.
Sim, Danilo Fernandes, concordo, é preciso que isso tenha um paradeiro. No entanto, pergunto: seria necessário a coerção de uma lei para impedir o comércio da fé? Será que a educação, o esclarecimento e a argumentação, aos moldes dos reformistas dos séculos XIV e XV, não seriam o caminho indicado para combater essa novel simonia?
Quando fui prefeito de Curitiba (1986-89), de comum acordo com a Associação Inter-Religiosa de Educação, a Assintec, que reúne protestantes, católicos, mulçumanos, judeus, budistas e tantos outros credos, restabeleci o ensino religioso nas escolas municipais da cidade. Estava convencido, e continuo seguro, de que o ensino religioso (nada a ver com proselitismo) desempenha um papel importantíssimo na formação de crianças e jovens.
Não seria essa, caro Danilo, uma das frentes de combate para vencer a terrível heresia da mercantilização da fé?

Roberto Requião
Senador da República

Resposta do Genizah


Prezado Senador Roberto Requião,

Sua “carta” é, sem sombra de dúvidas, a resposta de muitas orações, não apenas as nossas, mas, cremos, a de centenas de milhares que não aprovam o que está acontecendo em nosso país com a fé evangélica, em especial com o comércio religioso nos meios de comunicação.

A bem da verdade, trata-se de um incômodo que, para além das confissões de fé e das tradições, desperta nos homens de bem, cristãos ou não, o desejo de fazer desagravo à exploração da espiritualidade dos mais ingênuos e insensatos. O que temos é um sistema perverso, um projeto de indústria - produção em massa / mídia de massa / cultura de massa –, crescendo diante dos olhos complacentes da sociedade e do governo. Casuísmo em favor de estelionatários da fé sob a proteção da liberdade religiosa.

Já há alguns anos utilizamos este espaço virtual para fazer apologética do Evangelho de Jesus Cristo. Aqui neste blog, somos um pequeno grupo composto em sua grande maioria por escritores, pensadores, filósofos, teólogos e pastores. Na internet somos milhares. Temos, todos, de forma profética, denunciado os desvios éticos, morais e doutrinários da Igreja Cristã de forma contundente e corajosa, o que já nos rendeu processos, difamações, ameaças, e outros inconvenientes. A internet reverbera o clamor dos remanescentes.

Vale salientar, não somos contra a pregação da boa mensagem da salvação. Muito pelo contrário! Não obstante, é notório que a situação na qual se encontra a igreja evangélica em nosso país chegou a limites insuportáveis. Púlpitos em todos os cantos do Brasil têm se levantado contra falsos mestres e suas vãs filosofias.

Estes fatos por si só já seriam por demais preocupantes. Agravam-se, contudo, em função do poder da mídia e dos recursos financeiros que tais grupos detém como que um grande arsenal a favor da indústria da religião. Temos a convicção de que a nossa luta não é material, e sim espiritual, mas também não ingênuos ao ponto de achar que ela se travará apenas entre “principados e potestades”.

Diante do exposto e da boa vontade e compreensão de V. Exa., depois de buscarmos a Deus e de estarmos em espírito de oração para que sejamos guiados segundo a vontade do Espírito Santo, estamos nos propondo a procurar irmãos de fé, servos que concordem que é hora de fazer um desagravo público a estes grupos, supostamente ditos evangélicos, com relação às práticas lesivas e abusivas que vêm praticando em nome da fé.

Nossa intenção é aproveitar esta oportunidade ímpar para incentivar um debate nacional sobre o tema. Para tal, iremos buscar o conselho de outros irmãos em posição de liderança, discutir a questão e tentar, junto com estes, reunir grupos de líderes da igreja evangélica brasileira, homens e mulheres de Deus, que possuam representatividade nacional, seja pelo papel que desempenham como escritores, pensadores, filósofos, jornalistas, editores, pregadores, mestres, líderes de instituições para-eclesiásticas, políticos, líderes denominacionais e outros tantos que desejem participar de um encontro objetivando a discussão da situação e a produção de um manifesto de desagravo a ser apresentado e debatido em evento público, para o qual, convidaremos V. Exa.

Certos de que estamos vivendo este momento histórico da fé evangélica no Brasil guiados pelo Espírito Santo, em temor e tremor diante dos desígnios do Deus Todo-Poderoso, unidos para lutar pela fé que foi entregue de uma vez por todas aos Santos e, na expectativa da volta de Jesus Cristo, Senhor nosso e da história, subscrevemo-nos,



Danilo Fernandes
Rubens Pirola
Carlos Moreira

Editores do Genizah