sexta-feira, 20 de outubro de 2017

DÍZIMO E ADULTÉRIO


Marcelo Oliveira de Oliveira





Roubará o homem a Deus? Todavia, vós me roubais e dizeis: Em que te roubamos? Nos dízimos e nas ofertas alçadas. Com maldição sois amaldiçoados, porque me roubais a mim, vós, toda a nação. Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimento na minha casa, e depois fazei prova de mim, diz o Senhor dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu e não derramar sobre vós uma bênção tal, que dela vos advenha a maior abastança.” (Ml 3.8-10)


O que o dízimo tem a ver com o adultério?

Para entender a palavra do profeta Malaquias acerca do dízimo é preciso remontar toda obra. O capítulo 1 do livro profético de Malaquias mostra o processo de apodrecimento moral dos sacerdotes que representavam a Deus diante do povo:

O filho honrará o pai, e o servo, ao seu senhor; e, se eu sou Pai, onde está a minha honra? E, se eu sou Senhor, onde está o meu temor? — diz o Senhor dos Exércitos a vós, ó sacerdotes, que desprezais o meu nome e dizeis: Em que desprezamos nós o teu nome? Ofereceis sobre o meu altar pão imundo e dizeis: Em que te havemos profanado? Nisto, que dizeis: A mesa do Senhor é desprezível (vv.6,7).

O estado moral deplorável dos sacerdotes de Israel foi aprofundado ao optarem por uma vida dissimulada. Os “representantes de Deus” mentiam sobre a oferta do sacrifício; no lugar de pão limpo, ofereciam o pão imundo (O que você acha que eles faziam com o pão limpo, o bom pão?). Os “representantes de Deus” levavam o animal cego no lugar do perfeito; o animal coxo, no lugar do saudável. Mas para o povo, esses sacerdotes demonstravam a oferta boa e a afirmavam perfeita: o povo acreditava que aqueles “homens santos” ofereciam uma “oferta santa” a Deus.

Os fiéis desconheciam os bastidores do Templo, não faziam ideia das conversas, dos acordos, das articulações que solapavam o bom senso e a sinceridade da alma da pessoinha mais humilde e cheia de ternura diante de Deus e dos homens. Por isso, o profeta Malaquias, para além do ponto de vista da liturgia religiosa, mas sob o ponto de vista da vida pessoal do sacerdote, denuncia:

Não temos nós todos um mesmo Pai? Não nos criou um mesmo Deus? Por que seremos desleais uns para com os outros, profanando o concerto de nossos pais? Judá foi desleal, e abominação se cometeu em Israel e em Jerusalém; porque Judá profanou a santidade do Senhor, a qual ele ama, e se casou com a filha de deus estranho (2.10,11). 


Se há uma coisa que marca o caráter dos profetas do Antigo Testamento é a de chamar a dissimulação pelo nome:
  
Porque o Senhor foi testemunha entre ti e a mulher da tua mocidade, com a qual tu foste desleal, sendo ela a tua companheira e a mulher do teu concerto. E não fez ele somente um, sobejando-lhe espírito? E por que somente um? Ele buscava uma semente de piedosos; portanto, guardai-vos em vosso espírito, e ninguém seja desleal para com a mulher da sua mocidade (Ml 2.14,15). 

          
O clamor do profeta passa longe da questão cerimonial religiosa. Não se trata de denunciar os sacerdotes por causa do status quor religioso, mas devido à natureza maligna dos atos dos “representantes de Deus”. A injustiça − de trocar a mulher da mocidade por uma mais nova, vinda de uma terra estranha, praticante de uma religião bizarra – “gritava” diante de Deus. Não respeitar a mãe de seus filhos, a mulher que o apoiou em tudo, e autoanulou-se por causa dele, para o “ungido de Deus” chegar onde estava. O sacerdote não podia premiá-la, trocando-a por apenas uma pulsão carnal e descontrole de sua volúpia manifesta mediante a ânsia de prazer e de poder. Por isso, o Senhor diz:

Porque o Senhor, Deus de Israel, diz que aborrece o repúdio e aquele que encobre a violência com a sua veste, diz o Senhor dos Exércitos; portanto, guardai-vos em vosso espírito e não sejais desleais” (Ml 2.16).

O sacerdócio judaico havia se transformado numa plataforma de poder político e econômico, onde o “representante de Deus” acreditava ter o direito de fazer todas as coisas, inclusive o absurdo de expulsar a mãe de seus filhos, a mulher da sua mocidade, da sua “vida santa”.

A máscara caiu!

Agora o povo viu!

Era pública e notória a dissimulação dos líderes religiosos de Israel, pois não mais escondiam suas prostituições. Logo com o tempo, as pessoas viram que esses sacerdotes faziam tudo isso com o “dinheiro” do povo (sim, pois o povo não dava ofertas defeituosas, elas só se mostravam assim após entrarem à dispensa do Templo). Qual era a lógica? Parar de financiar tudo isso. O povo parou de dar dízimos e ofertas.

Parar de entregar os dízimos e as ofertas, naquele contexto, era estabelecer um caos social. Ora, os sacerdotes eram da Tribo de Levi. Esta era sustentada por intermédio dos dízimos e das ofertas de todo o povo. Embora a classe sacerdotal estivesse mergulhada na dissimulação, isso não significava dizer que todos os sacerdotes estavam assim, que todos os levitas eram “crápulas”. Não, muitos não haviam se dobrado! Se o povo parasse de dar o dízimo, a Tribo de Levi estava fadada a desaparecer. Por isso, o profeta denunciava e estimulava o povo a voltar a dar o dízimo: “Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimento na minha casa” (Ml 3.10). Os sacerdotes auxiliares não poderiam pagar pela perversidade dos oficiais.

Deus não é injusto!

A crise dos dízimos e das ofertas não era uma questão somente de infidelidade do povo, mas, principalmente, de infidelidade dos sacerdotes, “os representantes de Deus”. No tempo de Jesus esse processo apenas se aprofundou, e por isso, nosso Senhor não titubeou em desmascarar a “casta santa”:

Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Pois que dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer essas coisas e não omitir aquelas. Condutores cegos! Coais um mosquito e engolis um camelo. Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas!Pois que limpais o exterior do copo e do prato, mas o interior está cheio de rapina e de iniquidade. Fariseu cego! Limpa primeiro o interior do copo e do prato, para que também o exterior fique limpo. Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas!Pois que sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imundícia. Assim, também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas interiormente estais cheios de hipocrisia e de iniqüidade (Mt 23.23-25).


Há meses soube de um fato triste. Um importante pastor de uma grande denominação mantinha-se em adultério com pleno conhecimento de ministros. Entretanto, o adultério tornou-se público, não por confissão e arrependimento, mas por descuido. A cúpula denominacional simplesmente fez vista grossa até a bomba explodir. Porém, a igreja (ora, a igreja está cheia de pessoas sinceras que não se vendem) não aceitou. Resultado: o dízimo caiu, bem como outras contribuições financeiras. Mas pasme! O pastor adúltero foi premiado com a transferência a uma grande igreja. Agora, juntamente com sua amante, pode servir o “santo altar”. Igualmente, a saída do pastor anterior daquela igreja, agora assumida pelo pastor adúltero, também se deu por escândalo sexual: ele se envolveu homossexualmente com um jovem. Esse processo de imoralidade sexual traz consigo catástrofes existenciais inimagináveis para todas as esferas das vidas de pessoas.

Essas coisas não me escandalizam mais, pois já vi muitas semelhantes. Mas elas escandalizam muita gente, pois graças a Deus milhares de pessoas têm ainda um coração puro, como deve ser, e acredita na pureza e sinceridade de seus líderes espirituais, como também deve ser. Quando me deparo com tais relatos, pego-me pensando nos novos convertidos, nas crianças que estão sendo ensinadas, nos adolescentes e jovens num mundo cada vez mais bestializado sexualmente. Os pais das pessoas envolvidas, os cônjuges, os filhos...

Isso não pode ser banalizado. Isso não pode ser aceito. Isso não pode nos anestesiar. Meu desejo é que haja arrependimento, pois "quem abraça o espinheiro colherá mandacaru". Não haverá flores, rosas. O juízo de Deus vem independente da proteção ou não de uma cúpula religiosa.

Portanto, se você é crente mesmo, e quer seguir a Jesus com sinceridade; então cuide do seu coração, da sua mente e leia o Evangelho. Leia sempre os Evangelhos de Jesus (Mateus, Marcos, Lucas e João), mas com calma, mediante o Espírito de Deus e, em seguida, olhe para a realidade; você perceberá que os escândalos maiores que ainda virão é como disse Jesus: “só o princípio das dores”. Não devemos nos resignar com tais escândalos, mas não podemos evitá-los. O que podemos e devemos fazer é guardar nosso coração em Deus.

Paz e Bem!




segunda-feira, 12 de junho de 2017

RESENHA: PENTECOSTALISMO E PÓS-MODERNIDADE


Caro César,

Paz e Bem!

Terminei a leitura de tua obra.

Como forma de agradecer-te pela obra presenteada, envio esta resenha.

Embora desejes que os teólogos sejam menos polemistas e apologéticos, porém, mais “teólogos em plena diaconia” (p.409); tua obra, no entanto, é polêmica e apologética. Polêmica porque é a mais contundente defesa da experiência pentecostal ante a teologia reformada no Brasil, mais especificamente contra a perspectiva cessacionista; e apologética porque é um texto potencialmente capaz de explicar a identidade pentecostal para setores de fora da religião cristã.

            O primeiro ponto a destacar positivamente sobre a obra é a tua honestidade intelectual, que a conheço de longa data, pois convivemos cotidianamente em nossa atividade profissional. Somente uma pessoa de tua estirpe tem a coragem de estruturar uma obra cujos primeiros 11 capítulos revelam a forma que pensavas até a virada intelectual − como confessado: “O que escrevi antes de saber o que era Pós-Modernidade”; leia-se: sob a influência da teologia reformada –, onde a viagem para a Alemanha pode ser considerada um marco temporal para o início dela. Nesses capítulos, está patente o fenômeno rotineiro entre os jovens seminaristas pentecostais, onde uma vez em contato com algumas literaturas reformadas, se encantam com a organização dessa teologia e a abraçam sem ao menos levar em conta as duas indagações presentes na introdução de tua obra: “Será que os pensadores [ou estudantes] pentecostais sabem que a proposta batizada de cosmovisão cristã, é neocalvinista, e que ‘cosmovisão cristã’ é o sistema de Calvino repaginado por Kuyper? Será que o pessoal sabe que, como já foi dito, no subtítulo do livro de Abraham Kuyper, está escrito que o calvinismo é o ‘sistema que hoje a igreja cristã deve reconhecer como bíblico?” (p.38).

            Ainda na primeira parte da obra, destaco o capítulo 10, “Que se abram as Gaiolas Teológicas”, onde lembro-me da bonita e agradável tarde em que o frágil beija-flor entrou à biblioteca da CPAD para não mais achar a saída. Mas, por intermédio de um antigo “passarinheiro”, escondido por detrás da atividade intelectual, o pássaro das asas velozes teve sua doce liberdade de volta. É bonito saber que tal acontecimento se tornaria a metáfora do mais belo texto que, pessoalmente, considero ter saído de tua pena. Refiro-me à perspectiva estética dele.

           A tua honestidade intelectual continua a ser motivo de destaque porque na segunda parte da obra, deixas claro “O que Venho Escrevendo depois de Aprender o que É Pós-Modernidade” – Leia-se: o rompimento com o paradigma da teologia reformada. Aqui, destaco dois textos que foram os mais importantes para mim. O capítulo 12, onde defendes uma nova proposta de hermenêutica identitariamente pentecostal. O fundamento teórico dessa teologia seria a teologia narrativa, onde faríamos teologia, não apenas priorizando os textos paulinos, mas dando o devido valor aos textos evangélicos narrativos de onde brotam o fundamento dos principais dogmas da comunidade cristã no mundo, e especificamente da experiência pentecostal. Em seguida, destaco também o capítulo 16, onde fazes a fundamentação teórica do fenômeno da experiência religiosa, bem como o fundamento da experiência do Espírito a partir da reflexão teológica a fim de propor um novo modo de pensar e crer a teologia pentecostal. Destaco esses dois capítulos, pois neles, tocas em duas esferas urgentes para os teólogos pentecostais brasileiros: (1) compreender melhor o fundamento textual (hermenêutico, exegético e teológico) que embasa o fenômeno do batismo no Espírito Santo, isto é, os textos narrativos; e (2) compreender bem a natureza da experiência religiosa refletida no mistério do batismo no Espírito que se reflete na experiência de adoração pentecostal.

É alentador ler um texto sobre a pós-modernidade que não caia na mesmice de criticá-la sem compreendê-la, onde tu mesmo confessaste não dominá-la quando a criticou num dado período. Isso não é comum aqui no Brasil. A primeira obra equilibrada que eu li sobre o pós-modernismo, vindo da pena evangélica, foi a de James W. Sire (O Universo ao Lado, pp.263-299). A segunda, do Alessandro Rocha, Teologia Sistemática no Horizonte Pós-Moderno. A terceira, a tua; que ajuda a remontar um contexto que James Sire toca quando diz que


As reações de teólogos ao pós-modernismo foram as mais variadas possíveis. Alguns aceitam suas afirmações centrais e escrevem não teologias, mas a/teologias (nem teologias nem não teologias que provêm do interstício entre os dois). Não procure compreender isso sem ler Mark C. Taylor. Outros teólogos aceitam a crítica pós-moderna ao modernismo, vendo muito da teologia cristã contemporânea como extremamente “moderna” e tentam reformar a teologia. Entre esses estão pós-liberais que revisam a noção sobre o que a teologia é e pode fazer (George Lindbeck), os que veem na ênfase pós-moderna sobre a história uma oportunidade para a história cristã ser ouvida (Diogenes Allen) e evangélicos que revisam a natureza narrativa da teologia (Richard Middleton e Brian Walsh). Outros, ainda, rejeitam todo o programa pós-moderno e clamam por um retorno às Escrituras e à igreja primitiva (Thomas Oden) ou por um programa de reforma que continue a valorizar a razão humana (Carl F. H. Henry, David Wells e Gene Edward Veith Jr.).
Nos círculos evangélicos, o pós-modernismo continua provando ser controverso. Alguns jovens estudiosos, como Robert Greer, têm pesquisado as opções cristãs e clamam por um reconhecimento das verdadeiras reflexões do pós-modernismo e uma abordagem renovada do que ele denomina como “pós-pós-modernismo”. Estudiosos mais antigos, entre eles Merold Westphal e Douglas Groothuis, por vezes, discordam sobre o que pós-modernos como Lyotard estão afirmando, de modo que parecem estar falando um após o outro em seus diálogos. Embora ambos afirmem os ensinamentos centrais da fé cristã, eles defendem visões notadamente distintas sobre com que precisão a mente é capaz de conhecer o que é verdadeiro sobre Deus, os seres humanos e o universo. Evidentemente, a última palavra sobre pós-modernismo e teologia ainda está para ser escrita. (SIRE, pp.290-92)


De acordo com Sire, o fenômeno de pensar a pós-modernidade na teologia é uma tentativa não muito recente em outros recantos. Se aqui no Brasil haverá essa maturidade intelectual para reconhecer que tal questão está aberta e, que de dentro dela, ainda precisa haver mais debate, só o tempo dirá; pois “a última palavra sobre pós-modernismo e teologia ainda está para ser escrita” [E será escrita um dia?]. Mas sabendo um pouco da recusa de alguns em conhecer o assunto com seriedade, aqui no Brasil, penso que a coisa se desbancará para os rótulos num primeiro momento.

Para o movimento pentecostal, a pós-modernidade pode ser um caminho de diálogo para com os de fora, mas não tanto para com os de dentro. Explico. Para com os de fora, especificamente os da academia e os da área artística secular, há de fato uma tendência pós-moderna, mas que não faz muito sentido para a imensa maioria da sociedade brasileira que não é pós-moderna. As pessoas do movimento pentecostal formam o extrato dessa sociedade, nesse aspecto, acho o pós-modernismo problemático para ser aceito num país, onde do ponto de vista religioso, ainda se encontra, digamos, no “medievalismo”. Há de se ter esse toque de realismo, pois o pós-modernismo, como o modernismo e tantos outros “ismos” são tentativas de explicar tendências de “espíritos” que podem resvalar na “irrealidade social”. Considero que um dos problemas da relação entre acadêmicos − bem como representante da classe cultural − e sociedade é o de criar uma “realidade” diametralmente oposta ao mundo desta.

Gosto do ceticismo do cientista político, Eric Voegelin, em relação às ideologias. Para o cientista, elas são mestras em perder o contato com a realidade, pois “o pensador ideológico passa a construir símbolos não mais para expressá-la, mas para expressar sua alienação em relação a ela” (Reflexões AutoBiográficas, p.39). Voegelin foi vítima dessa alienação ideológica, quando tachado pelos seus críticos: “Tenho em meus arquivos documentos tachando-me de comunista, fascista, nacional-socialista, liberal, neoliberal, judeu, católico, platônico, neo-agostiniano, tomista e, é claro, hegeliano; registra-se ainda que eu era, supostamente, muito influenciado por Huey Long” (VOEGELIN, p.81). Certamente, caro César, não escaparás a isso também. Infelizmente, tal injustiça é produzida pela tendência moderna de se criar sistemas e conceitos para explicar uma série de coisas. Aqui, vale a pena conferir mais uma estupenda reflexão do pensador alemão acerca da filosofia que, tranquilamente, pode ser aplicada em qualquer ramo do saber:


Fala-se, rotundamente e irrefletidamente, em um sistema platônico, aristotélico ou tomista, a despeito do fato de que esses filósofos estremeceriam de horror diante da ideia de que sua investigação empírica da realidade pudesse resultar em um sistema. Se algo esteve sempre claro para um pensador como Platão, que sabia distinguir entre as experiências do ser e as do não-ser e admitia a existência de ambos os tipos, era que, para o bem ou para o mal, a realidade não era um sistema. Se o sujeito constrói um sistema, a falsificação da realidade é, portanto, inevitável. (VOEGELIN, p.119)


Um, dentre tantos pontos altos de tua obra, é que não apresentas a pós-modernidade como sistema de pensamento que deve ser abraçado acriticamente. Esse cuidado é importante. Costumam dizer que nenhuma pessoa é livre das ideologias. É verdade! Mas com certeza nenhuma pessoa tem somente uma ideologia. O ser humano é complexo a tal ponto que o mais ferrenho esquerdista torna-se um voraz capitalista em muitos momentos da vida; e o mais fiel direitista torna-se o maior detentor das ideias de esquerda quando sofre a injustiça. Ora, na realidade os dois estão certos e, na maioria das vezes, estão errados. Assim também acontece com quem se pretende modernista, pós-modernista, reformado, pentecostal. Ora, somos seres humanos em contato com o objeto. E, tomando emprestado o conceito de William James sobre a relação desses dois pólos (citado por VOEGELIN em Reflexões AutoBiográficas, p.114,15), o que acontece entre o sujeito e esse objeto denomina-se experiência pura, a realidade. Quem interpretará o resultado desse fenômeno? É possível uma descrição exata dele?

Posso dizer que a tua obra me ajudou a responder essas perguntas. Mas claro, não obtive respostas que fechassem as questões.

Grande abraço,

Marcelo Oliveira de Oliveira.

terça-feira, 27 de setembro de 2016

Retrato: uma análise despretensiosa do poema de Cecília Meireles


Marcelo Oliveira de Oliveira

RETRATO
Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste,
assim magro nem estes olhos tão vazios,
nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
— em que espelho ficou perdida a minha face?
(Cecília Meireles)

COMENTÁRIO
A vida passa e eu nem sinto. Não percebo o rosto enrugando (quando dou conta, ele já está enrugado!), os olhos cansando, os lábios cerrando, a força das mãos esvaindo, o coração frustrando pelas decepções da vida. A mudança é “simples, tão certa, tão fácil”. A vida se vai...

O poema, Retrato, de Cecília Meireles, conta a evolução (ou involução?) psicológica e física do ser humano. A poetisa narra sobre no que a pessoa se transformou ao longo da existência, mas de maneira implícita, o que ela era num passado distante. Preste atenção nessas combinações vocabulares:
Rosto: calmo, triste e magro
Mãos: paradas, frias e mortas
Olhos: vazios
Lábio: amargo
Mudança: simples, certa e fácil.

As palavras rosto, mãos, olhos, lábio e mudança são adjetivadas respectivamente por calmo, triste e magro; paradas, frias e mortas; vazios, amargo; simples, certa e fácil. Essas palavras delineiam o Retrato. Não o digital, não o em cores revelado no laboratório ou numa impressora. O Retrato de Cecília Meireles é o da existência humana: sua fugacidade, solidão e precariedade.

A expressão mais forte do poema, em minha opinião, é “em que espelho ficou perdida a minha face?”. É a consciência da poetisa a respeito da temporalidade e da fugacidade da vida, mas acompanhada de interrogações desconcertantes sobre a própria identidade: Quem sou? No que me transformei ao longo dos anos? O que fiz com a minha existência?

Quando o tempo passar, o inverno chegar e o fôlego da vida estiver menor que o de hoje: haja paz em Deus no meu coração, consciência de ter vivido da melhor forma possível e a alegria resoluta ao chegar diante do Pai e responder: quem eu fui? No que me transformei ao longo dos anos? O que fiz da minha existência?

Até lá, enquanto eu peregrinar por esta Terra, orarei assim: “Faze com que saibamos como são poucos os dias da nossa vida para que tenhamos um coração sábio” (Sl 90.12 – NTLH). Mas devo me lembrar que preciso viver essa sabedoria dada por Deus em cada dia de minha existência.

Paz e Bem!    

 



quarta-feira, 23 de março de 2016

Sobre o Manifesto Missão na Íntegra


Para mim, a teologia da Missão Integral é parte das minhas reflexões teológicas, pois foi o meu tema de monografia na faculdade, sob a orientação do Dr. Nelson Célio de Mesquita da Rocha. De modo que me sinto a vontade em falar sobre o manifesto do movimento Missão na Íntegra, assinado por Ariovaldo Ramos, Ed René Kivitz, Ricardo Bitum e outros.

A íntegra do Manifesto está aqui.

Cabe ressaltar, em primeiro lugar, que a teologia da Missão Integral remonta o Pacto de Lausanne. Um documento relatado por John Stott e aprovado pela maioria das igrejas evangélicas presente no primeiro Congresso Internacional de Evangelização Mundial em 1974, na Suiça – inclusive pelas Assembleias de Deus no Brasil, que enviou o pastor Alcebíades dos Vansconcelos e publicou o documento de Lausanne pela CPAD.

O documento reflete uma leitura simples das Escrituras em relação a prática missionária. Ora, a Igreja não pode fazer missões, ignorando o contexto social em que está inserida. Por isso, não pode haver dualidade na prática missionária, pois “o ide e pregai o Evangelho” não suplantou o “amai o próximo como a ti mesmo”. A partir de uma leitura legítima dos profetas do Antigo Testamento, dos Evangelhos e dos ensinos apostólicos foi possível estabelecer uma doutrina de orientação social para a Igreja Evangélica.  

Nesse aspecto, a TMI não tem o marxismo como referencial teórico. Para muitos teólogos, a TMI chega até ser ingênua, pois a sua leitura é simples, não sendo possível encontrar qualquer estrutura complexa de interpretação como a Teologia da Libertação. Na TMI, a inspiração das Escrituras é ratificada, o conceito de salvação e pecado é preservado. Entretanto, nada disso impede que seus proponentes deixem de ser isentos e assumam um lado da história para perder a sua capacidade profética. Foi o que fizeram Ariovaldo Ramos, Ed René Kivitz, Ricardo Bitum e outros.

O manifesto da liderança da Missão na Íntegra é vergonhoso em todas as dimensões. Ali, está presente a dissimulação da teologia. Sim, é possível dissimular na teologia e com a leitura do Evangelho. Foi isso que esse manifesto fez. É uma grande ironia: aqueles que sempre criticaram a igreja evangélica pela sua letargia, agora se mostram letárgicos e dissimulados. É incrível a perda da capacidade da isenção e da denúncia!

O movimento da Missão na Íntegra vem perdendo essa capacidade há muito, desde que um de seus maiores expoentes, Ariovaldo Ramos, por intermédio do seu projeto Visão Mundial, sentou no Palácio do Planalto e disse amém para aquele governo. O problema não foi dizer amém para o governo do PT, o problema foi dizer amém para um governo. Ariovaldo Ramos vem cometendo o mesmo erro da maioria das lideranças evangélicas brasileiras: sentando com o poder, negociando e acordando com ele. Enquanto isso, seus companheiros assistem tudo calados.

Por isso, não me surpreendo com a atitude da Missão na Íntegra. Era de se esperar. Mas duvido se ela soltaria um documento desses se o objeto das investigações fosse alguém da oposição. O nome disso é dissimulação! São os “profetas” do palácio assistindo os profetas das ruas serem achincalhados. Vergonha!

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

A PRIMEIRA E A SEGUNDA RESSURREIÇÃO: QUEM FARÁ PARTE?

Marcelo Oliveira de Oliveira

Nesta semana recebi questionamentos sobre a lição deste domingo, a de número 5, da Revista Lições Bíblicas CPAD, onde o comentarista, abordando sobre o tema escatológico da primeira e da segunda ressurreição, afirma: “Contudo, na primeira ressurreição, farão também parte desse evento glorioso: ‘as duas testemunhas’ (Ap 11.1-12; o grupo dos ‘mártires’, aqueles que aceitarão a Cristo na ‘grande tribulação’ (Ap 20.5,6)” (Revista do Professor, pág. 38 – Lição 5, 1º Tópico, 2º subtópico).

A grande dúvida é sobre o evento da Primeira Ressurreição descrita em Apocalipse 20.4-6. Antes de avançarmos é importante destacar que a explicação ora exposta neste espaço virtual segue a linha oficial de interpretação das Assembleias de Deus no Brasil, isto é, o Pré-milenismo-dispensacionalista-pré-tribulacionista.[1] Naturalmente, há irmãos em Cristo que compreendem de maneira diferente o capítulo 20 de Apocalipse e a doutrina do Arrebatamento. Como esse texto é voltado para os professores da Escola Dominical que usam a revista da CPAD, é importante respeitarmos a linha oficial de interpretação da nossa denominação.

     “As Duas testemunhas” e os “Mártires” farão parte da Primeira Ressurreição? O problema desta pergunta é que muitos confundem a Primeira Ressurreição como sendo apenas o evento escatológico do Arrebatamento. O texto de Apocalipse 20 diz que “bem-aventurado e santo aquele que tem parte na primeira ressurreição” (v.6). Quem são estas pessoas que têm parte na Primeira Ressurreição? O versículo 4 responde: “as almas daqueles degolados pelo testemunho de Jesus e pela palavra de Deus, e que não adoraram a besta nem a sua imagem, e não receberam o sinal na testa nem na mão”. Essas pessoas são o grupo de “Mártires” provenientes da Grande Tribulação. Aqueles que resistiram e enfrentaram a rebelião do Anticristo.  

    No mesmo período dos Mártires, ou seja, na Grande Tribulação, e após serem mortas, as “Duas Testemunhas” serão ressuscitadas, pois igual aos mártires, elas resistiram e denunciaram o engano do Anticristo, além de proclamar a mensagem de Deus (Ap 11.1-14). Logo, o grupo dos “Mártires” e as Duas Testemunhas têm parte na Primeira Ressurreição. Algumas pessoas discordam exatamente neste ponto! Por compreenderam a Primeira Ressurreição como se fosse apenas o evento do Arrebatamento, alguns irmãos pensam que o comentarista da lição equivocou-se ao afirmar: “Contudo, na primeira ressurreição, farão também parte desse evento glorioso: ‘as duas testemunhas’ (Ap 11.1-12); o grupo dos ‘mártires’, aqueles que aceitarão a Cristo na ‘grande tribulação’ (Ap 20.5,6)”. O que não é verdade, pois de acordo com a interpretação clássica do Pré-Tribulacionismo, não há erro nesta afirmativa. Vejamos.

     O Pré-Tribulacionismo Clássico, com base em Apocalipse 20, entende que se pode dividir o fenômeno da ressurreição escatológica em dois momentos: Primeira Ressurreição [salvos] e Segunda Ressurreição [ímpios]. Esta última se refere à ressurreição dos ímpios diante do Trono Branco, como está narrado em Apocalipse 20.11-15. Aquela Primeira Ressurreição diz respeito a todos os salvos em Cristo e não se dá apenas em único evento. Ou seja, a Primeira Ressurreição se dá em vários eventos em que se refere exclusivamente à ressurreição dos crentes. Neste aspecto, a Primeira Ressurreição ocorre várias vezes ao longo da história humana:

1.      A Ressurreição do Salvador, as primícias da Primeira Ressurreição (Rm 6.8; 1 Co 15.20,23; Cl 1.18; Ap 1.18);
2.     Os santos do Antigo Testamento. Mateus narra que, por ocasião da morte de Jesus, os túmulos de muitos santos foram abertos e estas pessoas apareceram na cidade como sinal de confirmação de que Jesus era o Messias (Mt 27.50-54; cf. Dn 12.1-2).[2]
3.      Os salvos que morreram antes da volta do Senhor (1 Co 15.51; 1 Ts 4.13-18).
4.     As Duas Testemunhas do Apocalipse (Ap 11.1-14).
5.      “Os mártires da Tribulação. Apocalipse 20.4-6 identifica os mortos martirizados na Tribulação como aqueles que serão ressuscitados na segunda vinda de Cristo, a fim de reinarem com Ele por mil anos”.[3]     

       Neste caso, não há erro em afirmar que, além da Igreja de Cristo ser arrebatada nos Céus, as Duas Testemunhas e o grupo de Mártires farão parte da Primeira Ressurreição. É o que está textualmente claro em Apocalipse 20.4-6. Ora, os santos do Antigo Testamento, a Igreja arrebatada, as Duas Testemunhas e os Mártires estarão para sempre com o Senhor: esta é a Primeira Ressurreição (Ap 20.6). Logo, a segunda ressurreição se refere somente aos ímpios que se rebelaram contra Deus: quando se dará o julgamento diante do trono Branco, o Juízo Final (Ap 20.11-15).

      O que deve ficar claro para quem estudará a lição deste domingo, em primeiro lugar, é que devemos conservar a esperança na Vinda do Senhor, pois Ele pode voltar a qualquer momento. A sua vinda é iminente! Os apóstolos tinham essa esperança e devemos conservá-la também. Anelar pela vinda do Senhor! Isto requer um exercício de nos tornarmos menos materialistas e mais espirituais. Em segundo lugar: que haverá um juízo de Deus, onde os homens prestarão contas de seus atos e ações perante o justo juiz.

Portanto, não precisamos nos prender em detalhes, mas focar no mais importante, no indispensável: o nosso Rei virá! Veremos a Jesus! É nutrir o povo de Deus com esperança, e não medo; com alegria, e não tristeza; com paz, e não turbação. Afinal, “agora, vemos por espelho em enigma; mas, então, veremos face a face; agora, conheço em parte, mas, então, conhecerei como também sou conhecido” (1 Co 13.12).

Paz e Bem!

Indicação Bibliográfica
Comentário Bíblico Pentecostal Novo Testamento, CPAD.
Enciclopédia Popular de Profecia Bíblica, CPAD.


[1] Aqui, cito o meu artigo da Revista Ensinador Cristão nº 65 e página 38: “Caro professor, a doutrina da Segunda Vinda do Senhor tem dois aspectos que precisam ser destacados: o secreto e o público. São duas as etapas que constituem a Segunda Vinda do Senhor. A primeira é visível somente para a Igreja, mas invisível ao mundo; a segunda etapa é visível a todas as pessoas, pois “todo olho verá”. Na presente lição, o aspecto tratado será o primeiro, ou seja, a doutrina do Arrebatamento da Igreja.
Ao introduzir a lição desta semana na classe, defina o termo “arrebatamento”. Mostre aos alunos que o termo se origina da palavra grega harpagêsometha que significa “àquilo que é frequentemente chamado”. Refere-se à ideia de se encontrar com o Senhor para celebrá-lo como Ele é. A ideia de nos encontrarmos com o Senhor faz um paralelo com 1 Tessalonicenses 4.15, onde a palavra parousia aparece determinando os seguintes significados: “presença” e “vinda” do Senhor. Por isso, há algumas linhas de pensamentos distintas, em que outros irmãos em Cristo consideram que o Arrebatamento e a Vinda Gloriosa serão um só evento.
Entretanto, o contexto do Arrebatamento como um acontecimento distinto à Vinda Gloriosa está nos escritos do apóstolo Paulo. Este tinha em mente o arrebatamento quando exortava os crentes do Novo Testamento a terem esperança: “nós, os que ficarmos vivos, seremos arrebatados juntamente com eles nas nuvens, a encontrar o Senhor nos ares, e assim estaremos sempre com o Senhor” (1 Ts 4.17). Textos como o de Colossensses 3.4 e o de Judas v.14 dão conta dos crentes voltando com Cristo para julgarem os ímpios após o Arrebatamento da Igreja.

Múltiplas Correntes Escatológicas concernentes ao Arrebatamento

Pré-Milenismo
Amilenismo
Pós-Milenismo
O Pré-Milenismo está dividido em Histórico e Dispensasionalista.
O Dispensasionalismo está dividido em:
  • Pré-Tribulacionista
  • Meso-Tribulacionista
  • Pós-Tribulacionista
O Amilenismo tem um entendimento de que na Segunda Vinda de Jesus, o Arrebatamento e a Parousia estarão conectadas, isto é, serão um só acontecimento, seguindo assim o Juízo Final.
Igualmente, o Pós-Milenismo entende que na Segunda Vinda de Jesus, o Arrebatamento e a Parousia estarão conectadas, isto é, serão um só evento, seguindo assim o Juízo Final.

As Assembleias de Deus no Brasil adotam a corrente Pré-Milenista-Dispensacionalista-Pré-Tribulacionista, onde o Arrebatamento da Igreja ocorrerá antes dos sete anos de Grande Tribulação.


[2] A seção do texto de Mateus mostra diversos acontecimentos miraculosos que os estudiosos chamam de testemunhos apocalípticos: o véu do Templo se rasgou de alto a baixo (v.51); o terremoto da terra, a abertura dos sepulcros (v.52) (cf. Comentário Bíblico Pentecostal Novo Testamento, CPAD, p.150-52).

[3] Enciclopédia Popular de Profecia Bíblica, CPAD, p.402. Cf. É importante ressaltar o comentário de Timothy P. Jenney, um pentecostal erudito americano, que mostra outra possibilidade dos mártires descritos em Apocalipse 20: “Quem fará parte da primeira ressurreição? (20.5) O Apocalipse descreve aqueles que ressuscitaram aqui como ‘aqueles que foram degolados’ (v.4). No Império Romano, a decapitação era o castigo pela traição cometida por um cidadão. Uma interpretação estritamente literal limitaria a primeira ressurreição apenas àqueles que foram martirizados dessa forma (omitindo, assim, aqueles que morreram pela espada, animais selvagens, crucificação, etc.). Porém outros argumentam que a frase é apenas uma figura retórica, uma metonímia, na qual apenas a referência a uma parte indica o conjunto (por exemplo, a frase ‘dez cabeças de gado’ indica, geralmente, dez animais inteiros, e não apenas suas cabeças). Se essa frase for uma metonímia, ela pode significar ‘todos os mártires’ ou ‘qualquer um que tenha dado a vida por Deus’, através do martírio ou não. Atualmente, estudiosos em geral entendem essa frase conforme esse último sentido, onde os mártires representam, simplesmente, o exemplo ideal e mais elevado de uma morte virtuosa. ‘Os outros mortos’ (v.5) serão julgados como os pecadores” (Comentário Bíblico Pentecostal Novo Testamento, CPAD, p.1918).