sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Domingo Cristão: encontros e desencontros

Domingo, “o dia do Senhor”. Encontros e desencontros religiosos são frequentes. No ônibus, no carro, na esquina, com os vizinhos; mas inevitavelmente na alma. É o dia em que os crentes saem para encontrar-se com o outro. O espaço religioso onde se dá o encontro é o Templo. Ali, as pessoas expressam suas emoções no encontro com o Sagrado ― ou não. 

É possível no mesmo espaço cúltico haver sentimentos e comportamentos tão distintos? A pergunta parece irracional, pois quando se trata de ser humano não se deve esperar outro comportamento: indivíduos realçando a própria personalidade. Entretanto, a pergunta é cabível no espaço religioso cristão, pois a coletividade depara-se com a mensagem unívoca de Jesus de Nazaré baseada no amor, na fé e na esperança.

Após um culto, como pode a pessoa não demonstrar, ou ao menos, sentir-se desafiada a amar quem está próximo? ― A esposa, o esposo, o filho, a filha, a mãe, o pai, o avô, a avó, o amigo, a amiga, o colega de trabalho com quem convivemos mais tempo que o nosso cônjuge... A lista é longa! E as possibilidades são muitas. Jesus de Nazaré é o próximo refletido nestas e outras pessoas (Mt 25.45).

Após um culto, por que uma pessoa não é instada a ter a fé de Jesus de Nazaré? ― a pergunta não é a fé “em”, mas a “de” Jesus. Impor-se a fé de Jesus é firmar o compromisso de realizar as mesmas obras do meigo nazareno. Mas não as mesmas obras de Jesus criadas pela mente evangélica hollywoodiana que só pensa em Milagres. Eu falo dos atos simples de Jesus como os de chorar diante de uma família por um amigo morto; consternar-se diante de uma mãe que acabara de perder o seu filho; indignar-se contra o sistema religioso opressor que rouba a alma e a inocência das pessoas: esses roubadores de almas parecem ser incapazes de se consternarem diante do sofrimento alheio. É o resultado da fé megalomaníaca. Esta não agrada a Deus! Mas sem a fé de Jesus é impossível agradá-Lo.

Após um culto, uma pessoa pode perder a esperança na vida? Num lugar onde, pelos motivos puros do Evangelho, ela devia ser impulsionada a ter esperança na vida, afoga-se em desesperos e em nós psicológicos esquecidos no “limbo” do subconsciente. A esperança teologal é para ser nutrida e manifesta num ambiente humano desesperado. É possível! O meigo nazareno recuperou essa esperança dos discípulos no caminho de Emaús quando eles a haviam perdido.

Amor, Fé e Esperança. O domingo dos encontros e desencontros religiosos pode se tornar em um dia de horror ou de amor, fé e esperança. De horror quando o espaço religioso encontra-se a serviço de uma máquina burocrática aonde as maiores e as principais casas de espetáculos do Brasil não chegam perto da complexidade e da engrenagem dos espetáculos religiosos dos domingos à noite. De amor, fé e esperança quando não há casa de espetáculo religioso nos domingos à noite, mas reuniões de pessoas simples que amam Jesus. Corações singelos, contritos; sofridos, sim! Mas amorosos, fervorosos e esperançosos no autor da preciosa fé.

Tenho visto o meio religioso bem de perto. Suas entranhas e lugares lúgubres. E garanto-lhe: há pessoas que se especializaram em usar a inocência alheia porque entendem ser o jeito mais fácil de enriquecerem, ficarem famosos e manter pequenos impérios em nome da fé. Confesso: não me acostumei a esse ambiente. Alegro-me por um lado porque é sinal de que não me vendi. Mas por outro, dilacero-me por ver, todos os dias, pessoas outrora humildes, portadoras de sentimentos puros e de ideais legítimos, transformando-se em cascas impenetráveis da dissimulação. O Evangelho jamais poderá frutificar: se é que um dia houve semente ali.

Para tais pessoas, o domingo tem sido de desencontros angustiantes e decepcionantes, embora algumas ainda não tenham se dado conta disso. Outras são as que promovem os desencontros do domingo.

Todavia, a minha esperança está em pessoas cujo domingo não é uma mera casa de espetáculo religioso. Mas a celebração do grande encontro de amor, fé e esperança que explode e multiplica-se em encontros verdadeiros e espontâneos que perdura o resto da semana, do mês, do ano e ao longo da existência.

Um domingo...

Paz e Bem!

M.O.O.
Rio de Janeiro - RJ
        

4 comentários:

Marcos Cavalcante Rodrigues disse...

Que o Culto possa desvendar o oculto da nossa alma para as incríveis possibilidades oferecidas por Deus após encontrar-se com o Senhor da Palavra. Não há como justificar o "castelamento" do cristão em si mesmo, quando a própria etimologia do culto cristão exige a vida comunitária do redimido pelo sangue do Cordeiro.

César Moisés Carvalho disse...

Prezado Marcelo,

Sensibilidade e humanidade. Penso que são as duas posturas requeridas no texto.

Obs.: Elas são necessárias para entendê-lo, inclusive.

É possível?

Marcelo de Oliveira e Oliveira disse...

Caro Marcos,

Paz e Bem!

O castelamento do cristão em si mesmo, por si só, reflete a contramão da proposta de Jesus de Nazaré. Quantos não compreenderam ainda!

Um abraço,
M.O.O.

Marcelo de Oliveira e Oliveira disse...

Prezado Pr. César,

Paz e bem!

Sensibilidade e humanidade no meio religioso é cada vez mais escasso.
Mas sensibilidade e humanidade são demandas básicas do Evangelho.

A pergunta persiste: é possível?

M.O.O.