terça-feira, 15 de setembro de 2015

DÍZIMO, DIVÓRCIO E CONAMAD

Roubará o homem a Deus? Todavia, vós me roubais e dizeis: Em que te roubamos? Nos dízimos e nas ofertas alçadas. Com maldição sois amaldiçoados, porque me roubais a mim, vós, toda a nação. Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimento na minha casa, e depois fazei prova de mim, diz o Senhor dos Exércitos, se eu não vos abrir as janelas do céu e não derramar sobre vós uma bênção tal, que dela vos advenha a maior abastança” (Ml 3.8-10).

Marcelo Oliveira de Oliveira

O que o dízimo tem a ver com o divórcio?

Para entender a palavra do profeta Malaquias acerca do dízimo é preciso remontar todo o livro. O capítulo 1 do livro do profeta Malaquias mostra o andamento do processo de apodrecimento moral entre os sacerdotes:

O filho honrará o pai, e o servo, ao seu senhor; e, se eu sou Pai, onde está a minha honra? E, se eu sou Senhor, onde está o meu temor? — diz o Senhor dos Exércitos a vós, ó sacerdotes, que desprezais o meu nome e dizeis: Em que desprezamos nós o teu nome? Ofereceis sobre o meu altar pão imundo e dizeis: Em que te havemos profanado? Nisto, que dizeis: A mesa do Senhor é desprezível (vv.6,7).

O estado moral deplorável dos sacerdotes de Israel foi aprofundado quando eles optaram por viver uma vida dissimulada. Mentiam sobre a oferta de sacrifício, no lugar de pão limpo, ofereciam o pão imundo (o que você acha que eles faziam com o pão limpo, o pão bom?). Levavam o animal cego, no lugar do perfeito; o animal coxo, no lugar do saudável. Mas para o povo os sacerdotes afirmavam e demonstravam que a oferta era boa e perfeita: a nação acreditava que eles ofereciam a Deus uma oferta exemplar. A sociedade judaica não sabia dos bastidores do Templo, ela não fazia ideia das conversas, dos acordos e das articulações que solapavam o bom senso e a sinceridade da alma.
Agora, Malaquias aprofunda a denúncia, não mais do ponto de vista da liturgia religiosa, mas do ponto de vista da vida pessoal e moral do sacerdote:

Não temos nós todos um mesmo Pai? Não nos criou um mesmo Deus? Por que seremos desleais uns para com os outros, profanando o concerto de nossos pais? Judá foi desleal, e abominação se cometeu em Israel e em Jerusalém; porque Judá profanou a santidade do Senhor, a qual ele ama, e se casou com a filha de deus estranho (2.10,11). 

Se há uma coisa que marca o caráter dos profetas do Antigo Testamento é quando eles chamam pelo nome toda sorte de dissimulação:


Porque o Senhor foi testemunha entre ti e a mulher da tua mocidade, com a qual tu foste desleal, sendo ela a tua companheira e a mulher do teu concerto. E não fez ele somente um, sobejando-lhe espírito? E por que somente um? Ele buscava uma semente de piedosos; portanto, guardai-vos em vosso espírito, e ninguém seja desleal para com a mulher da sua mocidade (Ml 2.14,15). 

O clamor do profeta passa longe da questão religiosa. Ele não está denunciando os sacerdotes por causa do status quor religioso. Malaquias os denuncia devido à natureza maligna dos seus atos. Da injustiça de trocar a mulher da mocidade por uma mais nova, vinda de uma terra estranha, praticante de uma religião bizarra. Por não respeitar a mãe dos seus filhos, a mulher que fez de tudo para ele chegar aonde havia chegado. O sacerdote não poderia “premiá-la”, trocando-a por apenas uma pulsão carnal e descontrole de sua volúpia manifesta mediante a ânsia do poder. Por isso, o Senhor diz:

Porque o Senhor, Deus de Israel, diz que aborrece o repúdio e aquele que encobre a violência com a sua veste, diz o Senhor dos Exércitos; portanto, guardai-vos em vosso espírito e não sejais desleais” (Ml 2.16).

O sacerdócio havia se transformado numa plataforma de poder político e econômico, onde o “representante de Deus” acreditava poder fazer todas as coisas, inclusive o absurdo de expulsar da sua vida a mãe dos seus filhos, a mulher da sua mocidade.
A máscara caiu!
Agora era notório para o povo!
Era pública a dissimulação dos líderes religiosos de Israel, eles não mais escondiam as suas prostituições. Só que com o tempo algumas pessoas foram despertando. Viram que se os sacerdotes estavam fazendo tudo isso mediante o “dinheiro” do povo (sim, pois o povo não dava ofertas defeituosas, elas só se mostravam assim após entrarem à dispensa do Templo), qual seria a lógica? Parar de financiar tudo isso. O povo parou de dar os dízimos e as ofertas.
Parar de dar dízimos e ofertas naquele contexto era estabelecer um caos social completo. Ora, os sacerdotes eram da Tribo de Levi. Esta era sustentada por intermédio dos dízimos e das ofertas de todo o povo. Embora, a classe sacerdotal estivesse mergulhada na dissimulação isso não significava que todos os sacerdotes estavam assim. Se o povo parasse de dar o dízimo, a Tribo de Levi estava fadada a desaparecer. Por isso, o profeta denunciava o estado deplorável do sacerdócio, mas estimulava o povo a voltar a dar o dízimo: “Trazei todos os dízimos à casa do tesouro, para que haja mantimento na minha casa” (Ml 3.10). Os sacerdotes auxiliares não poderiam pagar pela covardia dos oficiais. Deus não é injusto!
A crise dos dízimos e das ofertas não era uma questão apenas de infidelidade do povo. Mas, principalmente, da infidelidade dos sacerdotes.
No tempo de Jesus isso apenas havia se aprofundado e nosso Senhor não titubeou em desmascará-los também:

Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas!Pois que dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer essas coisas e não omitir aquelas. Condutores cegos! Coais um mosquito e engolis um camelo. Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas!Pois que limpais o exterior do copo e do prato, mas o interior está cheio de rapina e de iniquidade. Fariseu cego! Limpa primeiro o interior do copo e do prato, para que também o exterior fique limpo. Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas!Pois que sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imundícia. Assim, também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas interiormente estais cheios de hipocrisia e de iniqüidade (Mt 23.23-25).


Na questão moral, nosso Senhor também foi implacável com os tais:

Não tendes lido que, no princípio, o Criador os fez macho e fêmea e disse: Portanto, deixará o homem pai e mãe e se unirá à sua mulher, e serão dois numa só carne? Assim não são mais dois, mas uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não separe o homem. Disseram-lhe eles: Então, por que mandou Moisés dar-lhe carta de divórcio e repudiá-la? Disse-lhes ele: Moisés, por causa da dureza do vosso coração, vos permitiu repudiar vossa mulher; mas, ao princípio, não foi assim. Eu vos digo, porém, que qualquer que repudiar sua mulher, não sendo por causa de prostituição, e casar com outra, comete adultério; e o que casar com a repudiada também comete adultério (Mt 19.4-9).

Para esses oficiais da lei nosso Senhor disse: “qualquer que repudiar sua mulher, não sendo por causa de prostituição, e casar com outra, comete adultério”. Por que nosso Senhor foi tão duro? Porque os homens, principalmente os oficiais religiosos judeus, eram covardes com as suas mulheres. As repudiavam sem dó nem piedade. Depois iam para o Templo comer a Páscoa ou comemorar alguma festa sagrada como se nada houvesse acontecido.
O apodrecimento moral dos sacerdotes do Antigo Testamento e dos líderes do tempo de Jesus é o mesmo fenômeno em marcha com os líderes atuais.
A decisão da CONAMAD (Convenção Nacional das Assembleias de Deus Ministério Madureira) concernente a oficialização do divórcio para pastores que contraíram novas núpcias não trouxe nenhuma novidade. São certos tipos de pastores que vivem da igreja, ganham altos salários e não querem perder o privilégio. Entretanto, é imensa a influência negativa que uma decisão oficial tomada na instância maior de uma denominação pode trazer à mente de um membro (um jovem, um adolescente e um novo convertido). Banalizar a instituição do casamento como a CONAMAD banalizou com uma decisão como a que tomou é estimular a licenciosidade entre os jovens e a igreja como um todo. Só mostra o apodrecimento moral e espiritual de alguns líderes que se chamam pastores “ungidos” de Deus.

O triste é que as críticas a tal decisão não vêem por nenhum pastor, ao menos até o momento não vi nenhuma, mas por membros insatisfeitos, quase que num arroubo profético, desejando corretamente que este estado de dissimulação não se perpetue − veja abaixo:


Uma verdadeira profeta vociferando no "espírito" dos profetas do Antigo Testamento. É a indignação de quem percebe o absurdo de uma oficialização com esta:


Portanto, independente de tudo, cuide do seu coração, da sua mente e leia o Evangelho. Leia sempre os Evangelhos, mas com calma, mediante a graça de Deus e, em seguida, olhe para a sua realidade e você não se surpreenderá com tantos e tantos escândalos que ainda virão, pois como disse Jesus: “é só o princípio das dores”.

Coisas maiores tu verás!

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