quarta-feira, 7 de março de 2012

O SONHO DE DOM ROBINSON CAVALCANTE


Abri a presente semana homenageando o Rev. Robinson Cavalcante, fecho-a tributando-o mais uma vez. Por isso, publico um texto onde ele explicita sua crítica a desunião dos evangélicos no Brasil, expondo paradoxalmente o sonho de constituir uma unidade dialogal evangelical brasileira. Esse artigo é extremamente elucidativo, perspicaz e relevante, uma marca literária de Dom Cavalcante. Vale à pena a leitura! Que sejamos encorajados a sonhar com o santo sonho de Dom Robinson Cavalcante.

M.O.O.
Rio de Janeiro - RJ



A (DES) UNIDADE PROTESTANTE DO BRASIL

Nos últimos anos tenho colocado a minha (já escassa) reserva de idealismo apostando na criação da Aliança Cristã Evangélica do Brasil, como um órgão aglutinador e representativo do nosso, digamos, “mui plural”, universo protestante nacional. E tem sido uma mão de obra. Creio que foi muito mais fácil para Noé levar a bicharada para dentro da Arca. Haja desinteresse e haja desconfiança! Quem está fora não quer entrar, e, até, quem está dentro, quer sair… E lembrar que um dia tivemos uma história tão diferente! O espírito de respeito e cooperação entre os pioneiros, e no longo período do “consenso evangélico”; a unida reação a deliberação do Congresso de Edimburgo (1910) de excluir a América Latina como campo missionário; a unida participação no afirmativo Congresso do Panamá (1916); o unido trabalho da Comissão pela Escola Bíblica Dominical (produzindo material para várias denominações); o unido trabalho da Confederação Evangélica do Brasil (CEB); a unida participação nas Conferências Evangélicas Latinoamericanas (CELA’s); os ainda esforços unificados dos Congressos de Evangelização da América Latina (CLADEs). Parece que era algo profundo e duradouro, e, ao mesmo tempo, parece que nunca existiu.
O primeiro “baque” foi o ciclo de ditaduras militares repressivas em nosso continente, que levou ao fechamento de instituições interprotestantes, como a CEB, justamente pelo profetismo que era uma face da sua missão integral. No Brasil, foi um hiato de duas décadas entre o fechamento da CEB e a criação da Associação Evangélica Brasileira (AEvB), com uma descontinuidade de gerações e de propostas, depois da “amnésia compulsória” em relação ao seu passado de responsabilidade social a que as igrejas foram submetidas pelo Estado e por suas próprias cúpulas cooptadas pelo Estado. Após os Congressos Brasileiros (CBE’s) e Nordestinos (CBN’s) de Evangelização, a AEvB teve o seu valor, mas o modelo centralizado na figura do líder levou a um rápido declínio, acompanhando a crise do líder.
É claro que as polarizações entre o Fundamentalismo e o Liberalismo respingaram entre nós, apesar da nossa sólida maioria e hegemonia Evangélica (l), ou, durante a Guerra Fria, entre “direita” e “esquerda”, mas as Igrejas Históricas (de Migração + de Missão) passaram a ter a companhia, no mercado religioso, das, nem sempre cooperativas, igrejas pentecostais, e, depois, das nada parecidas e nada cooperativas, igrejas neo(pseudo)pentecostais. A velha e respeitável institucionalização protestante foi sendo substituída pelo estrelismo personalista dos caudilhos religiosos e seus clãs, com o coronelismo da cultura nacional sendo “revitalizado” pelos superstars da cultura importada. O caldo, rapidamente, entornou, e no lugar da cooperação e da busca pela unidade, acelerou-se o divisionismo, e baixou o espírito de “cada um por si e Deus por todos” (e satanás por alguns…).
Está difícil fazer essas estrelas se juntar, se sentar, dialogar, construir um processo coletivo, pois cada um está acostumado a impor a sua vontade em seu feudo, e humildade é um artigo cada vez mais escasso. Minha experiência como presidente da seccional de Pernambuco da Ordem dos Ministros Evangélicos do Brasil (OMEB) apenas reforçou a minha percepção de que os pastores formam uma classe dividida, concorrente, e pouco ética nos relacionamentos entre os seus egos inflados, movidos a holofotes. Os Conselhos de Pastores por esse Brasil a fora (malgrado o idealismo de alguns) tem-se transformado em comitês eleitorais para uma participação política corporativa e clientelista. Tem cidade com três Conselhos de Pastores, cada um alinhado com um partido político diferente.
Quando estive em um dos últimos grandes eventos promovidos pela AEvB, percebi, claramente, que havia animais demais para a Arca, que uns não queriam entrar na Arca, porque não se sentiam bem na convivência com outros bichos, e que havia animais que, para o bem geral de todos os bichos, não deveriam entrar na Arca.
Hoje é muito provável que não possamos mais construir uma Arca só, mas vamos terminar na pluralidade de uma flotilha, com diversas Arcas, barcos e solitárias jangadas.
Tenho um sonho mais modesto para a nascente Aliança Evangélica: que ela seja uma das Arcas, menor em tamanho, mas que termine por abrigar os setores sérios, éticos e sadios do protestantismo brasileiro. Algo até fácil de encontrar nas bases. Quanto às cúpulas…
Não podemos viver sem sonhos, e sem trabalhar para transformá-los em realidade!

Bispo Robinson Cavalcanti

Fortaleza (CE), 26 de agosto de 2011,

Anno Domini.



2 comentários:

Ratus Dei Quotidie disse...

Caro Irmão Marcelo, não posso negar a minha admiração à tamanha lucidez e compreensão contextual, do autor, acerca do protestantismo tupiniquim. Embora, confesso-lhe que um dia já sonhei com uma possível unidade protestante (não institucional, pois ao meu ver é impossível), mas apenas e, necessáriamente, doutrinal (naquilo que é essencial - salvação em Cristo pela graça mediante a fé, pecaminosidade humana, inspiração e inerrância das Escrituras,...). Entretanto, não sei se hoje ainda estou disposto a sonhar esse sonho, que ao meu ver, está muito mais perto de uma utopia improvável, do que de um sonho realizável. Com isso, de maneira nenhuma gostaria de me parecer um pessimista infrutífero e sem fé. Não! Muito pelo contrário, sinto-me ainda responsável em tornar audível o grito eclesiológico do reformado holandês Gisbertus Voetius, por ocasião do Sínodo de Dort (1618-1619): "Ecclesia Reformata et Semper Reformanda Est" (Igreja reformada sempre se reformando)", só não sei se terei forças, ou tendo-a, não sei até quando.

Como já dizia Samuel Chadwick "a cobiça é a doença que está fazendo secar a vida de nossa igreja em todos os sentidos". Por mais dura e simples que pareça ser esta frase, devo confessar-lhe meu amigo que não consigo desconsiderá-la e retirá-la dos meus olhos e pensamentos quando estou lendo, ou tentando refletir, as paginas escritas e as rascunhadas de nosso tempo pela/sobre a igreja. Que o Senhor Deus nos livre desse desejo/ânsia/ambição veemente de alguns por honra e riquezas. Que em nós haja o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus, como diz Paulo. Humildade, sinceridade, serviço, fidelidade e transparência seja o nosso lema. Que nós não sejamos mais um entre os muitos intérpretes (porque são consciêntes do seu papel e são responsáveis por suas histórias) e/ou amanuenses (porque são meros reprodutores, copistas de uma história) da história da igreja contemporânea que resolveram negociar o inegociável, separar o inseparável e amar o odiável.

Marcelo de Oliveira e Oliveira disse...

Caro amigo e irmão Rafael,

Saudades das reflexões na FAECAD!

Naturalmente o sonho de Robinson Calvalcante não é numa perspectiva institucional, mas essencial. No mínimo abrir um diálogo entre pessoas que são apaixonadas pelo mesmo Jesus. Essa realidade em nossa nação é escandolosamente inviável no contexto que aí está. Mas a utopia é necessária! Pelo menos perseguir a unidade que o próprio Meigo Nazareno perseguiu na sua oração sacerdotal, deve ser a nossa esperança ainda que insólita.
Sua visita a esse espaço é uma honra para mim. Deus continue te abençoando.

Um abraço,
M.O.O.
Rio de Janeiro